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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

A Modernização de Jane Austen

Título Original: The Modernization of Jane Austen

Retirado da Revista Costume Chronicles (Nov-Dez 2010)

Autor do Artigo: Katie Slawson

Traduzido e Adaptado por Clara Ferreira

 


 

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Adaptação – algo com que todos os grandes leitores e amantes de cinema acabam por se cruzar a determinada altura. Mais cedo ou mais tarde, os autores aos quais a sociedade sentenciou o sucesso das suas histórias (ou pelo menos interesse suficiente) terão um dos seus trabalhos adaptados para outro media. Na Época Vitoriana, obras de literatura populares, tal como Jane Eyre de Charlotte Bronte, Dracula de Bram Stoker, foram modificadas e apresentadas como peças de teatro (…) Por isso não é surpresa nenhuma que com o advento da imagem em movimento nos finais do séc. XIX e o surgimento de Hollywood nos inícios do séc. XX , que os estúdios tenham  decidido produzir adaptações dos clássicos mais amados. Jane Austen é uma dessas escritoras que conseguiu ter todos os seus seis romances adaptados para filmes e mini-séries.

 

Para entenderem melhor estas novas versões de romances clássicos em filme, os espectadores têm de perceber que adaptação não significa apenas a mudança literal necessária para alterar a palavra escrita para a visão do filme, mas também significa que a obra em si pode ser modificada e alterada para se poder ajustar às novas condições e novas formas de pensamento da actualidade, sejam elas sociais, políticas, éticas ou religiosas. Essencialmente, os romances não são apenas alterados para fazerem a transição páginas-ecrã, eles também são alterados para melhor reflectir ou modernizar a cultura e sensibilidades. Sim, é verdade que existem adaptações de romances de Austen como Clueless e Diário de Bridget Jones que são remakes totalmente modernizados, tirando apenas bases de Emma e Orgulho e Preconceito, respectivamente, mas também podemos dizer que mesmo as adaptações que pretendem tomar lugar no período descrito por Jane Austen estão, em muitas maneiras, modernizadas.

 

 

Muitos espectadores que não estão totalmente familiarizados com o período em específico que observam no ecrã podem não se aperceber da quantidade de elementos do filme em si, desde roupas, escolha de cores, penteados, maquilhagem até diálogos e até a certas ênfases de cenas, são tudo escolhas feitas pelo escritor, director, produtor, chefe de guarda-roupa, etc, para ajudar o espectador moderno a ambientar-se e aceitar o que estão a ver no ecrã. (…)

 

Hollywood deve ser congratulado do que toca às adaptações dos romances de Jane Austen. (…) Certamente as Janeites deste mundo, podem gritar e protestar em silêncio mas a verdade é que nenhuma adaptação de um romance pode representar ponto por ponto no ecrã a história escrita, não apenas por razões lógicas de tempo e orçamento, mas também porque não há duas pessoas a ter o mesmo ponto de vista sobre o mesmo romance. E aí surge o verdadeiro problema das adaptações porque, enquanto não se pode encontrar um mesmo ponto de vista sobre como deve ser Austen, existem muitos pontos em que se sabe como não deve ser um filme de Jane Austen.

 

 

Ao longo dos anos, Hollywood tentou passar o seu ponto de vista sobre o que Jane Austen escrevia baseados naquilo que eles próprios pensavam ou naquilo que vendia nas bilheteiras. Uma pessoa que tenha visto a primeira produção de cinema de Orgulho e Preconceito em 1940 (Greer Garson e Lawrence Olivier) assistiu a um filme talhado especificamente para os ideais do tempo. Da mesma forma que quem tenha assistido à versão de 2005 (Keira Knightley e Matthew Macfadyen) viu um filme que assentava no ponto de vista geral do espectador moderno sobre Jane Austen. Enquanto que a produção de 1940 tinha como linha de fundo “Cinco grandes belezas numa “caçada” de homens”, na linha de fundo de 2005 lia-se “Experimente a maior história de amor de todos os tempos”. Para o espectador casual isto pode passar totalmente despercebido, contudo, as verdadeiras Janeites sabem que Austen não escrevia nem sobre comédias excêntricas nem romance, contudo, nos anos 40 as comédias excêntricas eram o que estava em voga, tal como Lawrence Olivier e em 2005, romance, drama e Keira Knightley eram o supra-sumo. Consequentemente, Jane Austen foi adaptada para preencher as necessidades e desejos da audiência em causa. Os espectadores de 40 podem ter ficado com a impressão que Jane Austen escrevia comédias, enquanto que a audiência de 2005 ficou com a sensação de que ela era uma grande romântica. A verdade, claro, está algures no meio, pois Jane Austen escrevia sátira, algo que algumas adaptações parecem entender menos do que outras.

 

A concepção errada de que as histórias de Jane Austen são histórias de amor (romances) é um erro comum para aqueles não familiarizados com as obras. Nos inícios dos anos 90 houve um novo ressurgimento das adaptações de Jane Austen e com eles, a  insistência de que Jane tinha escrito histórias de amor (romances). As personagens em muitas das novas adaptações são íntimas a pontos que seriam impossíveis no tempo de Austen – contudo, o espectador de hoje é considerado por Hollywood como demasiado impaciente para se sentar e assistir a uma longa cortesia que envolve pouco mais do que conversas sobre a família e sobre o tempo e que não termina com beijos apaixonados. Quando Hollywood obedece aos espectadores e lhe oferece o que eles querem ver, estão apenas a assentir na ideia de que Austen equivale a histórias de amor. A versão de 1995 de Sensibilidade e Bom Senso sofre fortemente deste problema. Enquanto que a interpretação de Emma Thompson captura muito do humor e perspicácia de Austen, muitas das cenas de Marianne em que ela chora por Willoughby ou se atira para a cama são interpretadas de forma mais dramática do que de forma impensada de uma rapariga obcecada por amor que tenta parecer dramática. (…) Por altura em que o filme começa a terminar, surge-nos a cena de Marianne a caminhar pela chuva, doente de amor, pelas colinas que levam à casa do seu adorado Willoughby, a recitar poesia. É uma cena lindíssima, mas muito mais razoável de aparecer num romance gótico do que numa sátira, algo que aqueles que já leram Abadia de Northanger podem achar altamente irónico.

 

Acontece ainda que, para além de Austen ser adaptada num género a que o público em geral a associa erradamente, a aparência comum de cada filme é alterada consoante os “standarts” de beleza de cada década. As estrelas mais populares são escolhidas porque se enquadram naquilo que o público vê enquanto beleza. Os penteados são, grande parte das vezes, contemporâneos, ou pelo menos, uma lufada moderna nos penteados daquele período, já a maquilhagem reflecte sempre a era da audiência. As cinco irmãs Bennet de Orgulho e Preconceito de 1940 são mostradas sendo generosamente magras, sobrancelhas arqueadas e um pesado baton vermelho muito em voga nos anos 30; já Orgulho e Preconceito de 1995 e Emma de 1996, favorecem uma aparência mais natural e uma maquilhagem em tons de rosa e coral para as suas personagens; em Orgulho e Preconceito de 2005 a maquilhagem assenta em fazer os lábios parecer o mais natural possível e as sombras dos olhos variando entre tons de castanho.

 

O guarda-roupa também serve para perceber em que tempo o filme foi feito, mais do que para perceber que época o filme retrata, mesmo que o designer de guarda-roupa tenha sido preciso com a moda do período. Tipicamente, cores e escolhas de padrões diferentes dos da época em cauda, são opções tomadas numa tentativa de tornar o filme mais amigável ao espectador moderno, com quase todas as adaptações a optar por mostrar um pouco mais de decote do que seria admissível na altura. Joe Wright, o director de Orgulho e Preconceito de 2005, sentiu que o domínio da linha de cintura daquele período de tempo era pouco atractivo e pediu ao designer de guarda-roupa que as baixasse. A versão de 1940 foi muito mais longe ao ponto de colocar o filme no período de 1830 para que o guarda-roupa pudesse ser mais vibrante e arrebatador no ecrã, do que com os simples vestidos da Era da Regência. (…) O anos de 2007-2009 assistiram a cinco adaptações das seis obras completas de Jane Austen, que utilizaram penteados e maquilhagem modernos. O guarda-roupa era “semi” moderno (…).

 

Todavia, a aparência das personagens nos filmes não é a única coisa em perigo de ser modernizada pela nossa sociedade. Jane Austen tem sido transformada para ser mais simpática à vista do leitor também. O quadro de Jane pintado pela sua própria irmã, Cassandra por volta de 1810, quando Jane tinha 35 anos, tem sido refeito e (re)trabalhado várias vezes ao longo dos tempos. Uma versão victoriana fez os seus olhos muito mais largos e suavizou as suas feições; mais recentemente, quando a Wordsworth Editions Ltd considerou Miss Austen pouco atraente para poder ser a capa de livro sobre a sua vida, eles criaram uma versão do seu quadro que adicionou maquilhagem e retirou o resguardo para poder revelar todo o seu cabelo, algo que a verdadeira Jane raramente fazia.

 

Outro elemento das adaptações que revela claramente a época em que foi feita, são os diálogos. Certos trabalhos de Jane têm mais diálogos que outros, e os que existem são ditos de forma a serem facilmente perceptíveis pelo espectador moderno. Os diálogos são frequentemente modernizados, mas por vezes o escritor (guionista) vai demasiado longe ao ponto de inventar novas conversas e novas palavras que os personagens nunca disseram e que, nalguns casos, jamais diriam. Como os guiões dos filmes devem apelar a uma audiência mais larga e que pode não estar totalmente familiarizada com o estilo de vida da Regência em Inglaterra, muitos guionistas sentem a necessidade de colocar os personagens a explicar a sua situação. “Foi-me oferecida um lar confortável e protecção. Tenho vinte e sete anos. Não tenho dinheiro nem projecções. Já sou um fardo para os meus pais” diz Charlotte Lucas na versão de 2005 de Orgulho e Preconceito, para o caso da audiência não perceber porque razão Charlotte casa com alguém tão ridículo quanto Mr. Collins. Em Sensibilidade e Bom Senso de 1995, Elinor declara que “ As casas passam de pai para filho, não de pai para filha”. A ideia da mulher casar por uma questão de segurança mais do que por amor e a dificuldade envolve pretensas famílias era algo totalmente compreensível durante o período de Austen.

 

Infelizmente, os guionistas não escrevem somente para clarificar determinadas situações, mas escrevem também para inserir ideias modernas e talvez alterar o personagem por completo. Muitas das heroínas de Austen em filme são feitas com um pouco de feminismo, algo que não ocorre com as originais. A versão de 1999 de Parque de Mansfield vai suficientemente longe para conseguir alterar a personalidade da sossegada e pensativa Fanny Price numa notória e energética rapariga. As suas acções são mostradas num ponto de vista feminista mais do que acções baseadas em fé e na procura de fazer o que está correcto. Uma breve referência à escravatura que é feita no livro, torna-se num tema muito presente no filme, com Fanny a ver um navio de escravos no oceano, Edmund a lembrar-lhe que Mansfield Park existe graças às plantações em Antigua e por conseguinte, ao comércio de escravos. Este é um exemplo de como colocar crenças modernas nos filmes e tentar fazer de Jane algo que ela não era. Não sabemos a sua posição no que toca à escravatura, mas sabemos que todos os seus trabalhos giram em torno do casamento, não de política, para além de breves referências dos soldados, há raramente qualquer alusão às questões políticas da altura.

 

Muitas vezes, os aspectos modernos menos noticiáveis dizem respeito ao movimento do corpo dos personagens. A Era da Regência viu ambos os géneros a comportar-se com civilidade e decoro na presença de outros. Isto significa, sentar-se direito, com as mãos colocadas uma sobre a outra no colo ou pequenos e graciosos passos durante as caminhadas. Em Orgulho e Preconceito de 2005 a irmã Bennet mais nova corre e salta em cada esquina. Lizzy não se sente desconfortável em colocar os seus pés em cima dos móveis aquando da presença da sua família, colocar os seus joelhos debaixo das suas bochechas, e Mr. Bennet mal sentado na sua cadeira durante o jantar. Em Parque de Mansfield de 1999 temos uma Fanny e um Edmund que correm pela casa gritando enquanto fazem esvoaçar os seus casacos um contra o outro. Jim O’Hanlon, o director de Emma 2009 encorajou os actores a utilizar uma linguagem corporal moderna, daí Emma “vaguear” com tão pouca graça e se  espreguiçar na sua secretária.

 

Por todas estas razões, não há dúvidas de que seja qual for a adaptação dos trabalhos de Austen, nenhuma retrata verdadeiramente a época de Jane Austen. Certamente que algumas produções se sobrepõem a outras no que toca à precisão das maneiras, estilos e modas da época, mas isto significa apenas que as alterações feitas para os espectadores foram mais subtis e muitas vezes se retornarmos a ver essas adaptações alguns anos depois, vemos quão “datada” a adaptação era.

 

O que pensaria Jane se assistisse a alguma das suas adaptações para cinema? Ficaria horrorizada por ver mulheres a comportar-se com tão pouco decoro? Ficaria triste por se deparar com uma sociedade que tornou os seus romances satíricos em romances de histórias de amor?

Talvez ficasse desapontada ou talvez o seu lado cínico que tanto se ri das maneiras da sociedade ficasse encantado pela forma como o público escolheu agarrar nos aspectos do seu trabalho que prefere, negligenciando todos os outros. Não há forma de saber qual a reacção de Jane Austen, mas não há dúvida que o público continuará a desejar adaptações dos seus trabalhos. A questão agora é a de saber para onde a nova sociedade levará Jane Austen.

 

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