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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Shortstory – parte 51

Houve que acomodar em Pembeley a maior parte dos visitantes, pelo menos aqueles cujas moradas eram mais distantes. Para que todos pudessem ficar alojados com conforto, em muito contribuiu a organização da governanta Mrs Portman, orientada por Georgiana e Darcy.

Bilhetes foram enviados pelos criados para as principais moradias, acalmando as preocupações pelas ausências dos seus habitantes.

Emma apressou-se a enviar um bilhete ao pai, assegurando que estavam todos bem e que em Pemberley não havia correntes de ar.

 

 

E assim, quando Elizabeth acordou no dia seguinte, já repousada e calma, muito bem-disposta e curiosa para ouvir a restante história das vicissitudes de Anne, descobriu com assombro mas também com alegria como a sua propriedade estava cheia de convidados. Depois tiveram de lhe contar sobre o acidente de Elliot e a sua consequente morte, facto que Elisabeth aceitou com naturalidade, dado o calibre do carácter desse indivíduo e os inexplicáveis sofrimentos que infligira a Anne.

 

 

Também Anne tinha despertado já retemperada das forças, as marcas das cordas nos braços já se esbatendo, tendo dormido um sono profundo sem sonhos lembrados, as mágoas e os traumas cada vez mais distantes, mergulhados nas memórias que sabia que iria esquecer.

Após um pequeno-almoço reconfortante, recebeu as primeiras visitas e quis recomeçar a sua história com novo fôlego. Estavam então presentes Lady Russell, Darcy, Georgiana, Elisabeth, Emma, Mr. Knightley, Wentworth, General Tilney, Fanny, William Price e Edmund Bertram.

 

- Quando meu primo me arrastou para aquela propriedade lúgubre junto ao mar, sempre repetindo a mesma história de meu pai estar doente – contou Anne – eu não desconfiei de nada, era tudo tão súbito, a carruagem, o percurso, a conversa, tudo… quando chegámos à propriedade e a carruagem foi embora, dei conta que não havia ali ninguém e a propriedade parecia desabitada, mas ele, sempre com a mesma conversa, levou-me para a entrada – Anne parou por um instante para respirar fundo – e foi aí que se aproximou de mim e me deu qualquer coisa para cheirar… e não me lembro de mais nada…

 

Os outros entreolharam-se. Wentworth, sentado na mesma cadeira do dia anterior, segurava-lhe na mão. Lady Russell estava deveras impressionada. Emma, ao lado de Mr. Knightley, pensava que sempre havia desconfiado daquele indivíduo.

 

- Quando acordei já estava amarrada. – disse Anne. – E foi horrível, fui percebendo o que se havia passado. Ele aparecia por vezes, libertava-me as amarras, amordaçava-me e dizia que tudo aquilo era para eu compreender que não tinha poder de decisão, porque não decidia bem e ele é que tinha de me levar para o bom caminho… que eu não sabia orientar a minha vida e ainda bem que o tinha a ele, que era uma bênção o nosso noivado…completamente louco, mostrava-me as cartas que escrevia em meu nome com os maiores disparates sobre o noivado, a propriedade que havia adquirido e tudo o resto… quando eu me tentava libertar, voltava a deixar-me desmaiada com aquela…. aquela substância que me obrigava a cheirar…

 

- O Almirante Croft contou que foi encontrada uma grande quantidade de ópio entre os pertences de Mr Elliot mas ignoramos ainda como poderia ele tê-la conseguido. – disse Darcy.

 

- Elliot era cheio de astúcias e muito inteligente para o mal. – disse Anne. – Não sei o que teria sido de mim se não fosse… - Anne olhou agradecida para Fanny.

 

Todos os olhares incidiram sobre a pequena Fanny. Embora não gostasse de ser o contro das atenções, Fanny já se sentia mais à vontade entre aquelas pessoas. Além disso, estava rodeada pelo primo e pelo irmão, facto que lhe reforçava a confiança.

 

- Foi por acaso que descobri o que estava a acontecer. – disse Fanny – Tínhamos por hábito fazer longas caminhadas, meu irmão, meu primo e eu, mas por vezes também o capitão Wentworth nos acompanhava. Havia algum tempo que sabíamos da história de amor entre Wentworth e Anne e estranhámos quando as cartas falsas de Anne começaram a aparecer…

 

- Não contaram a ninguém o que se estava a passar… - resmungou Emma, um pouco aborrecida por se sentir posta de parte.

 

- Não o fizemos porque não sabíamos bem o que estava a acontecer, não nos leve a mal, menina Woodhouse… - disse Fanny com doçura – Além disso já devem ter reparado que não me sinto muito à vontade com… com muitas pessoas à volta… - e Fanny ficou corada pelo facto de ter conseguido desenvolver uma conversa tão longa.

 

Mr. Knightley assentiu e fez sinal a Emma para que esta compreendesse melhor o que se passara.

 

- Pronto, então eu compreendo, não teve importância. – sorriu Emma – O que interessa é que Anne está bem.

 

- Não estaria se não fosse Fanny… disse Anne.

 

- Houve um dia em que saí sozinha a cavalo. – contou Fanny – Meu irmão e meu primo tinham-se ausentado para resolver não sei que assuntos e também o capitão Wentworth não estava presente… não sei como foi mas perdi-me, fiquei muito aflita e fui dar com a propriedade enorme junto aos penhascos. Sentia-me assustada porque não encontrava ninguém e pensei que talvez ali estivesse alguém que me pudesse ajudar.

 

 

Todos seguiam com interesse a narrativa de Fanny. Coronel Tilney olhou para Lady Russell e ela viu no seu olhar o refulgir de memórias há muito esquecidas e já quase apagadas. Eram tantas as memórias que agora lhe assomavam em catadupas, fazendo-a sentir-se incomodada e envergonhada com os seus preconceitos e a sua preocupação com as aparências que Lady Russell sentiu que estava a transformar-se numa pessoa diferente.

 

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