Tinha acabado de entrar no supermercado e como sempre dei uma vista de olhos pelos livros. Deparei-me com alguns que tinham um lenço preso de oferta e despertou-me bastante a cor de um deles. Mas pensei: "Não vou comprar um livro por causa de um simples lenço". E, por curiosidade, afastei o lenço e deparei-me com a seguinte frase: "Se gostou e Orgulho e Preconceito, vai adorar este livro". Ups, fiquei logo desperta. Vi o título "A paixão de Emma" (The land of summer, no original), o preço (13 euros e qualquer coisa) uma capa agradável e nem sequer me importei com a história do livro. Escolhi um com o lencinho em condições, meti-o no cesto das compras e concentrei-me nas compras. Já ia a meio quando me lembrei de dar uma vista de olhos na contracapa para avaliar a história contada pelo livro. Não fosse eu dar de caras com algo que metesse Elizabeth Bennet e um bando de zombies, ou caras pálidas ou até gormitis no mesmo saco! Não era. Nada de seres estranhos. Tudo humanos normais mesmo, com cabeça, tronco e membros (até ver).
Mais não posso dizer. Certo é que vou ler e quando terminar, tecerei as minhas conclusões e apreciações (ou desapreciações).
Deixo o resumo da história:
"Emmaline sempre ouvira a mãe dizer que, como a mais velha de quatro irmãs, casar deveria ser a sua prioridade e dever. Contudo, o tempo passava sem que se vislumbrasse qualquer proposta de casamento. Até que num baile organizado em sua casa, um belo desconhecido convida-a para dançar. Chama-se Julius e, na manhã seguinte, pede a sua mão. Cheia de esperança e vontade de começar uma nova vida, Emmaline deixa a América rumo a Inglaterra. Porém, quando chega, depara-se com uma casa estranha, repleta de pessoas invulgares e criados excêntricos. Um cenário bastante distante do glorioso lugar que Julius lhe descrevera. Na verdade, à medida que os dias passam, o próprio noivo parece ter-se tornado irreconhecível. Emmaline sente-se cada vez mais só e infeliz, chegando até a pôr em causa o futuro da sua relação. Mas isso é antes de o passado de Julius, e a história daquela enigmática casa, lhe serem desvendados."
Semelhanças com Orgulho e Preconceito?
Para já só posso dizer que este 'Mr Darcy' é bem mais rápido que o original nos pedidos de casamento. E parece que é galante e encantador, pelo menos no início da história. E na obra de Jane Austen não havia casas enigmáticas mas sim belas.
Ao pesquisar imagens sobre Mrs. Ferrars, não resisti a tentação em compará-la com a ilustração de Chris Hammond de 1899. A semelhança pode ser coincidência, mas é espantosa.
Em Sensibilidade e Bom Senso 2008 eu posso afirmar que presenciei algumas agradáveis surpresas e algumas pequenas decepções.
Inicio pelas decepções. Uma delas eu já referenciei: Willoughby/Dominic Cooper. Infelizmente, não foi a minha única decepção. O casal Palmer também foi uma grande decepção: um casal absolutamente insípido. No livro, este casal proporciona alguns momentos de humor mas nesta produção ficam muito aquém. Neste caso, penso que tal aconteceu por uma escolha do argumento. Este casal não teve muito destaque e, portanto, não poderia ser um ponto marcante. Mas também Mrs. Jennings de S&S 2008 causou-me alguma decepção e, neste aspecto não penso ser devido ao argumento. Não quero com isto dizer que trata-se de uma má interpretação, apenas acho que Linda Basset não transmitiu a jovialidade desta senhora, apesar da mesma ser madura. Penso que ela poderia ter explorado muito mais o lado divertido e jovial de Mrs. Jennings.
Para equilibrar, há algumas surpresas agradáveis e que proporcionam momentos de interesse na série. É o caso de John Middleton, o primo que se propõe a receber as mulheres Dashwood em Barton Cottage. Acho que Mark Williams faz uma excelente actuação. Ele consegue recriar o Sir John que nós lemos em Sensibilidade e Bom Senso de Jane Austen.
Também destaco a personagem Anne Steele, interpretada por Daisy Haggard. Tenho que confessar que ela fez-me dar boas gargalhadas. Inconveniente e simplória, fala pelos cotovelos e sempre diz o que não deveria na hora mais imprópria possível. Causa alguns constrangimentos à sua irmã Lucy Steele. É ela quem revela o segredo do compromisso entre Lucy e Edward e este foi um dos momentos altos da mini-série. A realidade é que ela rouba a cena sempre que aparece.
A presença marcante de Mrs. Ferrars é outra agradável surpresa. Jean Marsh apresenta-nos uma Mrs. Ferrars com um estilo semelhante ao de Lady Catherine de Bourgh de O&P. Uma matriarca com posição social e posses, que tem o futuro do filho mais velho pré-determinado e que não concebe outro destino para ele que não seja aquele que ela mesma concebeu. Sobretudo, planeia um casamento proveitoso para ele. Aliada à sua filha Fanny Dashwood, mostra-se antipática e desdenhosa relativamente às irmãs Dashwood e, particularmente, de Elinor.
Não será absurdo dizer que quando assistimos a um filme/série alimentamos algumas expectativas e obtemos algumas surpresas. Acho que o balanço é positivo. As agradáveis surpresas, no que diz respeito à construção de personagens e actuações, minimizam a decepção que outras terão causado.
2011 é o ano em que passam 200 anos da publicação de Sensibilidade e Bom Senso. Apesar da importância da data até ao momento ainda não vi nenhuma comemoração oficial. Vão existindo iniciativas para assinalar a data em blogues, como aquela em que participa a Cátia, mas aparte disso a data tem passado despercebida.
Depois de ter tido estreia marcada para meados de Julho e ter sido desmarcada, eis que na semana passada o From Prada to Nada ou em português Sem Prada Nem Nada estreou nas salas de Portugal.
O que dizer sobre o filme? Pessoalmente achei-o inferior às versões modernas de Orgulho e Preconceito, mas mesmo assim gostei. No entanto é um gostar moderado. Não gostei que tivessem transformado a Marianne numa jovem fútil, mas fiquei satisfeita com a caracterização de Elinor e a sua relação com Edward. Adorei a forma como introduziram o Willoughby acho que fez justiça ao personagem! De resto o filme é tão fiel à obra quanto é possível tendo em conta que já se passaram 200 anos desde que Jane Austen o escreveu e apesar de ser passar em Los Angeles num bairro mexicano e não numa qualquer cidade inglesa. Certamente que muitos que vejam o filme e desconheçam a obra de Jane irão ver nele um chorrilho de clichés, mas o que a maioria também não sabe é que é em Austen que Hollywood veio beber o conceito: rapaz conhece rapariga e detestam-se mutuamente!
E se em vez de ter ido ao encontro do Cap. Wentworth depois de ter lido a sua carta, Anne optasse por lhe responder também com uma carta?
Eis a resposta que poderíamos ter lido:
My dear Frederick:
Penso poder tratar-te assim novamente. E como me deixa feliz poder fazê-lo. A tua carta encheu o meu coração de felicidade e devolveu-me o teu amor que eu julgava há muito perdido. Espero que me perdoes. Conseguirás perdoar-me? Ter-te repudiado oito anos e meio atrás foi algo que me assombrou este tempo todo. Houve momentos em que julguei não ser capaz de viver com isso, com o facto de ter recusado a minha alma, o meu coração e a minha vida. Ao recusar-te, recusei também a minha razão de viver e aquilo que me impele a continuar. Mas o meu amor por Kellynch Hall, pela minha família (sim, por eles!), por Lady Russell (falaremos dela mais tarde) e por todos os meus amigos permitiram-me continuar a suportar a dor da tua ausência e da possibilidade pouco remota de não me desprezares.
Não me odeies pelos meus erros passados. Entende, por favor, a inocência e a insegurança da jovem que eu era, não obstante o amor que sentia por ti e que era puro e verdadeiro. Guardei-te sempre no meu coração. Sempre. Acompanhei a tua vida à distância e sorri com todas as tuas alegrias e vitórias, assim como chorei todas as tuas tristezas e azares. Guardar-te-ia para sempre no meu coração caso não me tivesses escrito esta tarde. Sou tua, como sempre fui e como sempre serei. Até ao meu último sopro de vida e além disso se for possível. E mesmo que não estejas comigo, eu sempre te pertencerei.
Dizes que não me apercebi dos teus sentimentos desde que estás em Bath. Como poderia? Dei-te razões para me desprezares e não consegui ver além disso apesar de continuar a amar-te. Amas-me mesmo? Então sou a mulher mais feliz de toda a terra e de todos os mares que possas conhecer.
A minha vida hoje torna-se completa. Tu completas os meus pensamentos e a minha existência e eu desejo somente completar-te da mesma forma. Para sempre.
Yours forever
Anne Elliot
P.S. Aguardo-te logo à noite na festa em casa do meu pai. E espero ansiosamente pelo calor do teu olhar e pelo toque da tua mão. Tal como eramos oito anos e meio atrás. Um só.
Hoje deixo aqui a Divisão Mensal de Capítulos. Esta divisão serve para organizar a leitura, não impede que se leia toda a obra logo na primeira semana. Significa que a discussão semanal incidirá apenas naqueles capítulos.
1 - 7 Setembro
1º - 13º Capítulo
8 - 14 Setembro
14º - 26º Capítulo
15 - 21 Setembro
27º - 39º Capítulo
22 - 30 Setembro
40º - 50º Capítulo
Todas as semanas haverá, pelo menos, um post no blogue respeitante ao nosso Grupo de Leitura, que será colocado todas as quintas feiras do mês e será a partir desse post que começará a discussão e troca de ideias e opiniões - meninas, vale tudo menos tirar olhos!
Para acederem mais facilmente aos artigos do Grupo de Leitura, procurem no menu direito do blogue esta imagem e cliquem.
Não sei decifrar exactamente quando Frederick Wentworth descobriu que ainda amava Anne Elliot. Penso que o mais certo é que nunca tenha deixado de a amar e evidencie apenas um misto de revolta e ressentimento perante o facto de por ela ter sido recusado e abandonado, tendo sido persuadida pela amiga Lady Russell e ainda pela dedicação e respeito que ela achava dever à sua família.
Esta revolta e ressentimento que Wentworth mostra (in)conscientemente perante Anne vai diminuindo gradualmente à medida que ele convive novamente com ela, apesar de pouco falarem mutuamente, e descobre uma Anne também magoada e interiormente revoltada perante as suas decisões passadas. Penso que o facto de ter sabido que Anne recusara a proposta de casamento de Charles Musgrove e se dedicara apenas e unicamente a Kellynch Hall e à sua família, ajuda Wentworth a alimentar novamente o carinho e estima que tivera pela jovem Anne Elliot. Vê-la desenvolta, ver a sua perspicácia e delicadeza perante situações e decisões difíceis, ajudam-no a a compreender que Anne é muito mais do que a jovem mulher que o recusara. Ela é agora, aos vinte e sete anos, uma mulher madura e diferente mas também um ser extremamente generoso, delicado, consciente e justo.
A carta que Frederick dirige a Anne em Camden Place é de uma beleza e sensibilidade extremas (You pierce my soul). Sentindo-se encurralado e inseguro (I am half agony, half hope) relativamente aos sentimentos de Anne por ele (isto depois de saber da possibilidade de Anne vir a casar com Mr Elliot e depois de ela ter negado esse compromisso), Frederick decide jogar a sua última e definitiva cartada. E, incentivado pela conversa que vai ouvindo entre Anne e o Capitão Harville (I can listen no longer in silence), discretamente dirige-lhe uma missiva tocante e aberta (I must speak to you by such means as are within my reach).
Tell me not that I am not to late, that such precious feelings are gone for ever. I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it, eight years and a half... ago.
Enquanto escreve, Frederick vai ouvindo a conversa de Anne com o Capitão Harville. E vai adequando a sua escrita a determinadas citações da sua amada. Quando ela afirma que esquecer facilmente um amor "não está na natureza de qualquer mulher que amasse verdadeiramente" e que as mulheres não esquecem tão rapidamente quanto os homens. Frederick replica escrevendo "Dare not say that man forgets sooner than woman, that his love has an earlier death. I have loved none but you".
Anne diz ainda que a mudança se deve a circunstâncias interiores e que só a natureza do homem o faz esquecer tão facilmente, denotando acreditar na inconstância do sexo oposto. Frederick responde: "Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant."
"You alone have brought me to Bath. For you alone, I think and plan. Have you not seen this?"
Continuando a conversa sobre a natureza dos afectos, Anne afirma acreditar que um homem não sobreviveria a todas as dificuldades, privações e perigos a que é exposto se ainda tivesse de lidar com sentimentos femininos "Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine."
É aqui que o Capitão Wentworth deixa cair a pena com que escreve, sobressaltando Anne que o descobre mais perto do que imaginara e a faz desconfiar que o objecto apenas caíra porque ele estivera ocupado a ouvi-los.
I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice when they would be lost on others. Too good, too excellent creature!"
Anne termina a discussão fazendo, apesar de tudo, alguma justiça aos homens. Afirma que o verdadeiro afecto e constância também podem ser sentidos pelos homens, seres que considera capazes de todas as coisas magnifícas e boas nas suas vidas de casados. "You do us justice, indeed. You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating, in F. W.
Contudo, isto acontece apenas quando o homem tem uma finalidade que é a de saber que a mulher que amam vive apenas para ele. As mulheres, por seu lado, apresentam nesse aspecto uma ligeira diferença: amam mais longamente, quando a existência ou a esperança partiu. "I must go, uncertain of my fate; but I shall return hither, or follow your party, as soon as possible. A word, a look, will be enough to decide whether I enter your father's house this evening or never."
O Grupo de Leitura vai avançar no próximo mês de Setembro com Sensibilidade e Bom Senso de Jane Austen.
O formato já não vai ser o de fórum. Vai ser um formato mais ligeiro, mas que penso que gerará a mesma discussão.
Todas as semanas, colocarei no blogue um post que iniciará a discussão através dos comentários e será a partir dos comentários que trocaremos todas e mais algumas impressões - os comentários mais pertinentes serão publicados no blogue como artigo de forma a gerar ainda mais discussão e troca de opiniões, não só entre o grupo de leitura, mas também com as restantes leitoras do blog.
Poderão encontrar (brevemente( no menu direito do blog um link directo para todos os artigos do Clube de Leitura para facilitar o acesso.
Ainda não tenho organização de capítulos definida, mas em breve trarei novidades.
Quem estiver interessado em participar no Grupo, pode fazê-lo em qualquer altura enviando um email para janeaustenpt@sapo.pt