Emma, um manifesto anti-casamento?
Nos tempos de Jane Austen, o casamento era a quase única carreira disponível para as mulheres. Desde o momento em que eram apresentadas à sociedade que as mulheres tinham como objectivo encontrar um marido. Lembro-me de ler em E Tudo o Vento Levou de Margaret Mtchell que as mães ensinavam às filhas uma série de comportamentos a adoptar para arranjarem maridos, um deles era comer o menos possível em eventos sociais porque supostamente uma mulher com pouco apetite, era atraente aos olhos do homem. Não sei se nos tempos de Jane existiam este tipo de regras, mas a verdade é que E Tudo o Vento Levou passa-se durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), e os livros de Jane foram escritos cerca de 50 anos antes, é de supor que existiam regras, ainda que possam ser diferentes das que são apresentado no livro de Margaret Mitchell.
Casar era um objectivo e por aquilo que lemos em Jane Austen, era um negócio, era desejável sentir afecto pelo futuro marido, mas era muito melhor se ele tivesse uma forma de sustentar um lar. Unir amor e dinheiro nem sempre era fácil. E por isso o casamento de Charlotte Lucas não nos surpreende ou o facto de Edward só puder casar depois do Coronel Brandon lhe dar a paróquia.
Quem não casava ficava às sopas da família, ou então teria de arranjar um trabalho como preceptora, professora numa escola ou dama de companhia, não havia muito mais carreiras disponíveis. E como outras ficções nos ensinam estes cargos não eram profissões de sonho ou meios para alcançar satisfação a nível pessoal.
É de supor que muitos dos casamentos que aconteceram no circulo social e familiar de Jane Austen eram apenas uma tentativa desesperada de evitar a pobreza, a dependência económica ou ter de ganhar a vida com um trabalho. Jane não seria cega a estas coisas e de certeza que ao visitar amigas ou parentes casadas percebia que aquilo do casamento era na verdade um grande incomodo, porque a mulher era, muitas vezes, sujeita a uma vida infeliz da qual dificilmente conseguia escapar.
Talvez, ao ver isto Jane tenha decido criar uma heroína suficiente rica que não precisasse de casar. Quando li Emma pela primeira vez surpreendeu-me que ela afirmasse que não pretendia casar, algo revolucionário para a altura. E todas as vezes que o Mr. Woodhouse lamenta o casamento da Miss Taylor, agora Mrs Weston é de crer que ele pensasse que o casamento não era nenhum mar de rosas e ela estaria muito melhor na casa dele, onde embora fosse a preceptora de Emma, era muito bem tratada.
Penso que este livro, poderá ser considerado um manifesto anti-casamento e uma forma de criticar a obrigação que existia para contrair matrimónio ainda que não houvesse afecto ou vontade para isso.