A Literatura de Jane Austen e sua Influência na Vida Moderna
Artigo retirado do blogue Os Filmes da Lua
Adaptado por Clara Ferreira
A escritora britânica Jane Austen (...) Considerada como um dos maiores expoentes da literatura mundial, as suas obras caíram nas graças de qualquer leitor que se aventurou pelo seu estilo único, pelo uso de uma subtil e irresistível ironia em cada linha dos seus textos, que sempre foi directamente contra os padrões “morais” e as divisões sociais típicas da sociedade inglesa do século XVIII. Uma das coisas mais interessantes que se destacam a respeito de Jane Austen é que mesmo não tendo sido uma frequentadora da alta sociedade da época, conseguiu retratar como ninguém todos os sentimentos, hábitos e intrigas dos ricos nobres de berço de forma extraordinariamente fiel, não poupando o leitor ou suavizando a verdade. Um pioneirismo literário significativo para uma mulher daquela época.
(...) Nas obras de Jane Austen há intrigas, mentiras, traições, casamentos arranjados e forçados, razão, sensibilidade, orgulho, preconceito e todo o arcabouço emocional que tece a teia das relações sociais até os dias de hoje. Este vasto mundo criado pela autora não pôde ser ignorado pelo cinema por muito tempo, cada vez mais carente de roteiros de qualidade. Logo vieram as adaptações e assim um público cada vez mais abrangente pode conhecê-la e admirá-la.

A primeira adaptação de uma obra austeniana baseou-se em Orgulho & Preconceito, um dos seus grandes sucessos. Passado na Londres do século XIX, o livro conta-nos a história de uma jovem inteligente e vivaz, mas de condição financeira precária, que se vê envolvida numa relação de amor e ódio com um rico e orgulhoso cavalheiro. Tendo Laurence Olivier e Greer Garson nos papéis principais, esse filme foi vencedor do Óscar de Melhor DireCção de Arte em Preto e Branco em 1941.
A versão mais fiel da obra ainda é a que foi feita no ano de 1995 pela BBC de Londres, estrelada por Colin Firth e Jennifer Ehle nos papéis principais.


No mesmo ano em que a BBC lançou sua minissérie, Hollywood preparava mais uma digressão pela sociedade rural inglesa de Jane Austen, pelas mãos de Emma Thompson e Ang Lee, no maravilhoso Sensibilidade e Bom Senso. (...)

Aparentando ser um sucesso garantido, diante de imensos sucessos como estes já citados, a receita austeniana nem sempre serviu para boas adaptações. Pode ser citado como exemplo o caso de Emma, estrelado por Gwyneth Paltrow e Jeremy Northam, certamente uma das piores adaptações feitas com base na obra de Austen. De qualidade, o filme possui apenas o figurino e o cenário, o mínimo exigido para se recriar uma época mais luxuosa, como qualquer pessoa minimamente inteligente sabe. Emma trouxe benefícios apenas para Paltrow, pois foi através dele que acabou por ser convidada para estrelar Shakespeare Apaixonado, filme pelo qual ganhou seu único Oscar. (...)


A obra póstuma Persuasão, considerada pelos críticos seu livro mais maduro, passou pelos cinemas num filme totalmente esquecível. (...) O livro Mansfield Park, cuja adaptação cinematográfica foi traduzida para o português como O Palácio das Ilusões, outra obra adaptada para os cinemas, conta a história de mais uma Cinderela adoptada por tios ricos e dividida entre dois homens. Diferente dos outros filmes já citados, de qualidade duvidosa, O Palácio das Ilusões desanda por uma opção estilística: a directora canadiense Patricia Rozema transformou a personagem Fanny Price (Frances O´Connor) numa projecção de Miss Jane, mudando a personalidade passiva e vacilante da personagem pela activa e firme da autora.

O mar de adultério, decadência financeira e traições ainda é o mesmo, mas faltou algo para ser tão bom quanto as adaptações anteriores. De mérito, tem a tentativa de mostrar a obra por outro prisma, mas peca justamente por não conseguir fazê-lo de forma competente e por mutilar as principais características dos personagens austenianos.
Miss Jane e Sua importância Inigualável

Muitas outras séries e filmes não discorridas aqui merecem citação, como o Emma de 1997, a série homónima de 1972, o Persuasão de 1995, as novas séries para A Abadia de Northanger, Persuasão e O Parque de Mansfield, feitas pela ITV, mostram-nos a longevidade dos temas austenianos. (...)
Apesar de considerada a segunda figura mais importante da literatura inglesa, perdendo apenas para William Shakespeare, existem aqueles que não levam a autora a sério, intitulam as suas obras de “livros de mulherzinha” e fazem pouco caso de sua comprovada importância na literatura mundial. O facto é que biógrafos ainda se descabelam a tentar desvendar essa enigmática mulher, que mudou a literatura da sua época, influenciou o cinema e ensinou gerações inteiras sobre a força do amor, a força da mulher e até mesmo sobre o espírito masculino ao longo dos tempos. (...) A mulher de Jane Austen é inteira, racionalmente sensível e plena da força feminina, que reconhece seu próprio valor e sua importância como instrumento de mudança. Ler Jane Austen torna-se mais do que um prazer: É um golpe de ar fresco na fronte de qualquer mulher moderna, pós-moderna e além, diria eu.