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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Quando a Obra Ultrapassa o Autor

É ponto assente que Fanny Price e "O Parque de Mansfield" não reúnem consenso entre os muitos leitores de Jane Austen. Este livro faz parte, segundo alguns analistas literários, da segunda fase de escrita da autora. É mais denso, menos espirituoso e focado sobremaneira na moralidade. Esta última característica é personificada na figura principal do enredo, Fanny Price.

 

A menina frágil (fisicamente) e aparentemente apagada intelectual e psicologicamente chega a Mansfield Park com apenas 10 anos de idade. Repudiada por todos, inclusive pelos que tomaram a decisão de a recolher com o suposto intuito de lhe darem melhor condições de vida, encontra refúgio na atenção do seu primo Edward, segundo filho de Sir Tomas. Este pretende seguir a carreira clerical por vocação mas, também, por não ter outra alternativa, porquanto a herança da propriedade das terras de seu pai estava destinada ao seu irmão mais velho, é um rapaz culto. Em conversas com a sua recém chegada prima, descobre que esta é dotada de um espírito crítico e de uma boa dose de bom senso. Os diálogos entre os dois decorrem de forma serena. As suas opiniões convergem em quase tudo ao longo do romance, excepto no que toca à encenação teatral - Edward cede perante a força do restante grupo; Fanny mantém-se inalterável na sua posição e no que à personalidade dos irmãos Crawford concerne. No fim, sabemos que todos darão razão a Fanny Price pela sua aparente teimosia.

 

Tal final leva-me a pensar sobre quem teria influenciado quem. Foi Edward que moldou Fanny, tendo ela, como suposta obra (entenda-se aluna) superado o seu autor? Ou teria Fanny sido sempre mais astuta e intelectualmente mais capaz do que o seu primo?

 

Para mim, Fanny era uma pérola que precisava apenas de se descobrir. Edward deu-lhe um pequeno empurrão no mar calmo da literatura e da discussão que ela soube aliar às suas capacidades inatas, superando, em muito, o seu mentor.

Fanny Price e as oportunidades desiguais

 

 

Confesso que Fanny Price é uma personagem de quem gosto muito e na qual reconheço ao longo da obra Mansfield Park uma constância de comportamento ético e moral que lhe dão cor e a tornam sempre a mais sensata e ajuizada das personagens. Não obstante, existem situações muito irritantes e injustas para Fanny (sobretudo por parte da tia Norris que parece, não uma tia, mas uma madrasta e daquelas bem malvadas!) que nos levam por vezes a sentir que deveria haver por parte da nossa Fanny uma tomada de atitude, uma recusa em aceitar a situação existente, enfim, uma qualquer prova de revolta ou afirmação pessoal.

Mas essa é a nossa opinião, à luz da época atual. Não podemos esquecer que a situação de Fanny nos alvores do século XIX era a de uma pessoa que vivia uma vida emprestada, cujos direitos na casa Bertram não eram iguais aos dos outros, havendo sempre ali presente a marca de uma certa bondade que era prestada pelos mais ricos e poderosos e para quem se esperava que a resposta fosse sempre a de agradecer tudo e ser humilde, silencioso e subserviente.

 

E assim, Fanny é mandada para a casa rica dos tios com dez anos, fazendo uma longa viagem sozinha, sendo arrancada aos seus irmãos e irmãs com quem tinha um bom relacionamento (sempre achei que a família Bertram, se era assim tão rica, deveria ter ajudado todos os irmãos de Fanny, já que assim haveria necessariamente desigualdades na educação e nas oportunidades… há ajudas ao mais velho, William, e no final da obra, a outra irmã, Susan, mas e aos outros? Ficamos sem saber o que lhes aconteceu, dadas as características desmazeladas do pai e da casa em geral. Naturalmente que temos a possibilidade de especular, o que seria um tema muito interessante para uma shortstory…)

 

Quando Fanny chega a casa dos tios sente-se naturalmente inibida e envergonhada, o que não é de estranhar, pois é uma criança com uma grande sensibilidade e que vem de um ambiente completamente diferente. Caberia aos adultos e aos primos pô-la à vontade e dar-lhe oportunidades, mas isso não acontece. Com exceção de Edmond – o grande amigo e apoiante de Fanny desde o início – todos os outros assumem atitudes e posturas críticas, embora se diga que os primos se portaram bem e a receberam o melhor que puderam. O facto é que todos se manifestam prematuramente, uns sentindo-se dececionados com a sua timidez, outros ridicularizando-a pelo seu aspeto e pela pobreza do seu vestuário.

Se Fanny se refugia para chorar nos primeiros tempos em Mansfield, a responsabilidade é toda dos elementos da sua família que não a entendem nem se conseguem pôr no seu lugar, esperando dela um comportamento impossível para uma criança com aquela sensibilidade e naquelas circunstâncias.

 

Sempre me impressionou a incapacidade das primas Bertram, Maria e Júlia, em tornar-se amigas de Fanny. Ao longo da obra perpassa a desigualdade de oportunidades que é esperada, onde as primeiras têm sempre um lugar de princesas enquanto Fanny mais parece uma cinderela enviada para um canto, cuja função é a de permanecer na sombra, sendo apagada, eternamente pisada e humilhada, muitas vezes de uma forma que é indireta mas visível. A tia Norris lembra-lhe sempre que não deve esquecer o seu papel de emprestada, a tia Bertram espera naturalmente e com egoísmo que Fanny lhe faça companhia, esquecendo-se das motivações e interesses que a própria pode ter. Quanto ao tio, sir Thomas, sendo uma figura que a intimida, aprecia-a pela discrição e pelo juízo.

Dá a impressão que, caso houvesse alguma atitude irreverente ou inusitada por parte de Fanny, a mesma jamais lhe seria perdoada! Esse facto é notório no caso da peça de teatro em que todos participam, menos Fanny, que sempre se manifestou contra esse acontecimento e a forma como o tio, ao regressar de viagem, reage ao constatar tal facto.

E assim temos desde o início da obra uma Fanny precocemente crescida que aprende a medir muito bem todas as situações que vive e as palavras que diz, movendo-se com cuidado entre pessoas que não lhe reconhecem os mesmos direitos que elas próprias têm.

 

Quanto às relações de Fanny com os próprios pais, há uma oscilação entre as saudades que manifesta no início da obra e o distanciamento ou mesmo a vergonha, sobretudo com os comportamentos do pai, quando os volta a visitar, muitos anos depois. Nessa altura, há um desconforto notório por parte de Fanny que já se se sente como pertencente àquele lugar após tantos anos a viver com outras pessoas e noutro lugar diferente.

 

E assim, é ironicamente Fanny quem vale aos tios no final da obra, acompanhada pelo seu grande amor, Edmond – após os percalços da paixão desadequada que o mesmo manifestou por Maria Crawford… - e também pela irmã, Susan, chamada a preencher o lugar de Fanny junto dos tios. Quanto aos outros irmãos e irmãs de Fanny, além de William que desenvolve a brilhante carreira na marinha, como já disse, também gostaria de os ver longe do ambiente familiar de origem, embora também não os veja em Mansfield Park…

 

Shoulda Known

"Teria Jane Austen a crença de que um escorpião nunca nega a sua natureza? Teria ela a convicção de que uma pessoa não era capaz de viver um arrependimento transformador que causasse uma revolução comportamental?  É estranho constatar isto, ainda mais quando é evidente que ela acreditava em segundas chances."

 

 

Esta é uma das frases de Cátia Pereira no seu artigo Jane Austen, Fanny Price, o Cepticismo e o Divino. Realço esta ideia porque é com ela que me debato constantemente nesta obra "O Parque de Mansfield".

Dei este título ao meu artigo porque a comparação com o escorpião que a Cátia fez recordou-me de uma música "Shoulda Known" do álbum "Got You on My Mind" de Madeleine Peyroux e William Galison que fala precisamente de um sapo que transportou às costas um escorpião na travessia de um rio, e quando o escorpião se viu no outro lado da margem, já a salvo, deu a picada fatal ao sapo que o ajudara (história esta que se transforma depois numa metáfora com um romance frustrado). Não deixa de ser curioso que tal comparação nos faça chegar a Mansfield Park!?

 

Eu acredito que Jane Austen acreditava verdadeiramente em segundas chances. E não apenas para os "bons da fita"... afinal, ela dá a Willoughby a oportunidade de se retratar, de se arrepender... permite que Marianne saia daquele romanticismo fanático... o próprio Tom Bertram é resgatado de uma vida de vício e jogo... Julia Bertram é salva ao último minuto, evitando um desfecho como o de Maria. Porquê? Não sei... mas todas as minhas suposições apontam para uma certa genuinidade de carácter e sentimentos e um profundo arrependimento.

 

Mas será que Jane acreditava que o mundo se dividia em bons e maus caracteres? Será que entendia que uma vez mau, sempre mau? Ou que a natureza humana estava destinada a ser exclusivamente boa ou má? Custa-me acreditar que tal fosse o caso. Ninguém é completamente mau nem completamente bom - todos temos defeitos e virtudes, uns preponderam sobre os outros consoante certas atitudes e comportamentos que tomamos.

O que me parece é que Jane tinha dificuldade em aceitar mudanças profundas em caracteres inundados em vícios, corrompidos por uma educação negligente, desviada, sem valores. No entanto, mostrou-nos que tal era possível com Willoughby, que tais caracteres eram capazes de arrependimento. Mas e de mudança? Só vos consigo apresentar o exemplo de Tom Bertram, cuja doença como que serviu para expurgar os males e vícios da sua conduta, um pouco à semelhança de Marianne, cuja doença serviu para expurgar o amor exacerbado e histérico e portanto, inconsequente. O próprio Darcy, alterou a sua conduta, conseguiu mudar o seu comportamente impregnado de orgulho, por amor.

 

Mas Henry Crawford? Sou sincera, achei que a determinada altura ele tinha dado o "clique". Mas ele não era constante e tinha muitos passos ainda para dar e não soube esperar, não teve paciência e se calhar, o troféu Fanny Price não era assim tão importante para ele, Maria Rushworth estava mais à mão, era mais fácil e simples... não lhe exigia nada, apenas lhe alimentava prazeirosamente o ego. Henry Crawford mostrou-se um escorpião, mas Fanny nunca se colocou na posição de sapo e por isso, sabemos, que nunca foi atingida.

 

A escrita de Jane Austen assenta muito nos valores, nos principios e Mansfield atinge muitas vezes a característica de ser moralista (para mim, excessivamente, por vezes). O que penso que ela nos queria mostar era que não temos de abdicar dos nossos valores e principios fundamentais para atingir a felicidade. Que não temos de ser rebeldes, revoltados, insatisfeitos e inconformados para conseguir alcançar objetivos. Podemos mudar a nossa vida, traçar o nosso caminho e percorrê-lo pela persistência, paciência e esperança. Que a nossa fidelidade àquilo que somos e à nossa consciência, trará as devidas e desejadas recompensas.

 

Breve perfil psicológico de Fanny Price

Li algures que Fanny Price é aquela jogadora que, num jogo de dodgeball (Jogo do mata ou Queimada), é a única que sempre se esquiva das bolas e que nunca tenta atingir ninguém com elas. E, no final, é a única que se mantém em pé, vencedora. Será que é assim que a vemos no livro Mansfield Park? Poderemos afirmar que ela jogou o jogo? Ou será que nem sequer participou?

 

Fanny Price é uma das personagens mais complicadas em Mansfield Park, apesar da sua atitude demasiadamente (e por vezes irritantemente) passiva. E, por isso, a impressão que deixa nos leitores é quase sempre negativa. No entanto, penso que se analisarmos a personagem com algum sentido prático, facilmente concluímos que Fanny Price é uma personagem soberba, complicada e até atractiva.

 

Comparando Fanny Price com outras heroínas austenianas, activas, encantadoras e corajosas como Elizabeth Bennet ou Emma Woodhouse, podemos afirmar que a heroína de Mansfield Park é apenas uma mulher tímida, reservada, solitária e insegura, situações que a impedem de participar adequadamente na vida social que a envolve. Também a podemos classificar como uma mulher deprimida, com sintomas psicossomáticos (isto ocorre quando os problemas emocionais se reflectem em problemas físicos); Ela sofre com dores de cabeça quando está emocionalmente perturbada, por exemplo. Além de tudo isso, Fanny tem uma auto-estima abaixo do chão, o que diminuí a sua auto-confiança e consequentemente a torna menos propensa a contactos sociais.

 

Depois, e porque um mal nunca vem só, além de todos estes factores pessoais impeditivos de uma vida social prazeirosa, Fanny price vê-se ainda prejudicada com as repercussões que a sua personalidade quieta tem nas pessoas que a rodeiam. Estas tendem a esquecer-se dela, da sua presença, ou simplesmente não entendem a sua maneira de ser, nem tentam fazê-lo. Verifica-se muitas vezes que Fanny desaparece da acção da história e dos olhos dos seus companheiros.

 

Há, contudo, personagens que, ocasionalmente, se questionam sobre a verdadeira personalidade de Fanny, como por exemplo Sir Thomas. Isto porque ela nunca manifesta o que pensa ou sente. Fanny esconde as suas emoções e pensamentos e raramente os partilha com outros, preferindo partilhar com o leitor os seus sentimentos relativamente a Edmund e depois Henry, navegando em círculos, sem dizer uma única palavra sobre o assunto em voz alta.

 

Outros há que acham que conhecem bem Fanny Price. É o caso de Edmund. E nós sabemos muito bem que, sobre Fanny, ele não entendia rigorosamente nada!

 

E porque Fanny não exprime aquilo que realmente se passa dentro dela, as outras personagens acabam por ficar com pouca informação e consequentemente acabam por fazer suposições erradas sobre ela. Por exemplo, ninguém entende por que Fanny se recusa a casar com Henry Crawford, e como ela não oferece para isso uma explicação clara, as outras personagens assumem que ela realmente não sente aquilo que diz quando diz "não" à proposta do playboy.

 

Ela nunca tenta superar a sua timidez, não se esforça. Prefere refugiar-se no seu mundo, não se envolvendo nas situações, na vida que vai decorrendo à sua volta. Joga passivamente o jogo de dodgeball, passando despercebida. E, no final,  vence. O seu troféu? Edmund Bertram, o primo que amou desde muito jovem. 

 

Porquê?...

 

Foi a única que se manteve de pé, incólume, alheia e intocável.

 

O que nos leva a pensar...

 

 

Jane Austen, Fanny Price, o Cepticismo e o Divino.

Escrever sobre Fanny Price e sobre Mansfield Park tem revelado a grata surpresa de que há muitas leitoras a partilharem, tal como eu, uma preferência por Henry Crawford. Tem sido agradável este feedback, através dos comentários, sobre o facto de que somos quase um "clube" a ansiar que Jane tivesse destinado para Fanny Price outro destino: render-se ao amor de Henry. Sabemos que não foi este o desenlace ocorrido e lamentamos...

 

Por que Jane Austen preferiu ignorar todas as provas de tentativas de mudança de Henry e fez com que Fanny não lhe cedesse afecto? Aquando da primeira vez que li Mansfield Park, esta foi uma pergunta que martelou a minha cabeça. Lembro-me perfeitamente da sensação de desconforto e da inconformidade com aquele final.  Durante algum tempo pensei que a razão principal seria manter a coerência da personalidade de Fanny Price, uma mulher de princípios rígidos e firmes. Mas, gradualmente -  e quanto mais tenho pensado nisso - constato que a razão ultrapassa Mansfield Park (apesar de ver bem evidente nesta obra) e é premente em toda a obra de Jane Austen.

 

Espero não estar a ser abusiva em afirmar que há um tom de cepticismo na forma como Jane desenha a sociedade e os inter-relacionamentos sociais da sua época. Os personagens, nas suas imperfeições e virtudes, apesar das vicissitudes e das falhas que cometem não modificam o seu comportamento. A única personagem que recordo sofrer alguma modificação foi Emma, ao ver as consequências de seus erros de julgamento. Ainda assim, no caso de Emma, a admissão dos erros e a correcção dos mesmos não geram uma mudança profunda de personalidade: Emma não deixa de ser Emma.

Henry Crawford, Willoughby, Mr. Frank Churchill, Mr. Wickham, Mr. Thorpe, General Tilney, Tia Norris, Fanny Dashwood - todos estes possuem um carácter duvidoso e Jane não deixa entrever uma mudança. O único sobre o qual caiu uma luz de esperança foi Henry Crawford, mas este também não resistiu.

 

Teria Jane Austen a crença de que um escorpião nunca nega a sua natureza? Teria ela a convicção de que uma pessoa não era capaz de viver um arrependimento transformador que causasse uma revolução comportamental?  É estranho constatar isto, ainda mais quando é evidente que ela acreditava em segundas chances. A sua obra é repleta de momentos em que os seus heróis vivem uma segunda chance: Elinor e Edward, Elizabeth e Darcy, Anne e Wentworth, Mr. e Mrs. Weston, entre outros. Seja por infortúnio seja por mal-entendidos, Jane Austen concedeu algumas segundas chances de emendar um erro e de refazer julgamentos precipitados. Por outro lado, quando o assunto era o carácter e a natureza do personagem parecia não haver ponto de variação: seria imutável. Admitia que o que pensamos de alguém pode ser algo formulado por um julgamento precipitado e, por isso, suceptível de sofrer modificação; mas quando o assunto centrava-se no que este alguém realmente é, na sua essência, isto nunca passaria por uma mutação.

 

A forma como Jane retrata a sociedade através de seus personagens é, muitas vezes, carregada de humor e isto leva a que seja-lhe imputado uma tónica de crítica social.  Será? Será que podemos admitir isso. Reconheço-lhe uma enorme capacidade de observação e de destaque dos pontos fracos da sociedade, mas ao fazer isto estaria ela a preconizar, a defender ou a antever uma real mudança da sociedade? Experimento uma hesitação em responder esta questão.

 

Ao admitir uma Fanny Price de carácter irrepreensível e de virtudes constantes e, ao mesmo tempo, ao criar um Henry Crawford perpetuamente falho e imperfeito; Jane Austen gera um desequilíbrio. Parece que estamos diante de dois pesos e duas medidas. Neste ponto do meu devaneio, interrogo-me se Jane não estaria certa: a perfeição não sofre alteração mas o imperfeição nunca poderá modificar-se de forma a tornar-se perfeita. Quase uma separação entre o divino e o humano.  Como diria Henry, Fanny é uma visão angelical. Alguém a quem dificilmente outro ser humano chegaria perto sequer. Talvez - se concedermos que os personagens tem vida própria para além da pena do escritor e do olhar do leitor Henry Crawford tenha se rendido submisso ao cepticismo de Jane Austen e constatado que nunca estaria à altura de Fanny. 

 

Como vêem,  Jane Austen afigura-se aos meus olhos como uma mulher, até certo ponto, indecifrável. Não sei se seria uma mulher céptica e conservadora ou se seria crítica e progressista. Neste aspecto, Fanny Price e a sua perfeição divina não me ajudam a chegar a uma conclusão definitiva. 

E Se Fanny Ficasse Sozinha?

 

Li há uns dias um artigo muito curioso que falava da possibilidade de Fanny, para o modelo de mulher da época, representar um certo estilo feminista, ou pelo menos de emancipação da mulher. Confesso que fiquei incrédula com o título "Fanny Price, Feminist" de Vera Nazarian no site Austen Authors - mas assim que iniciei a leitura, verifiquei que concordava e para surpresa minha, terminei o artigo com a convicção que sim, para a época, Fanny teve comportamentos que, com um pouco mais de rebeldia, seriam encarados como representantes da emancipação feminina. Mas a forma suave, coerente e consciente com que os faz, retira-lhes aquele brilhantismo da recusa de Lizzie a Mr. Collins - mas Fanny faz o mesmo, recusa Mr. Crawford. E mesmo com receio do Tio, faz-lhe frente e diz "NÃO!". A Fanny que muitas vezes encontramos em alguns comentários, que fazem dela uma sombra no universo austeniano, não seria capaz de tamanho feito.

 

Contudo, embora tenha grande apreço por Fanny porque ela possui todas as virtudes que gostaria de ter e representa a constância que muitas vezes me falha, sinto-me inconformada com o final que Jane Austen lhe deu... um pouco à semelhança com o final que deu a Marianne Dashwood, mas que de dia para dia me parece o mais correto. Porém, com Fanny tal não acontece.

 

Edmund Bertram é para mim um carácter inferior, muito inferior a Fanny. Para mim Edmund representa aquela figura muito correta, aparentemente muito íntegra e com elevados padrões de retidão, mas que, colocado em face das circunstâncias da vida que lhe dão oportunidade para pôr em prática o que o intelecto lhe ordena, faz tudo ao lado! Apaixona-se cegamente por uma mulher apenas pela sua beleza, deixando para trás todas as incongruências do seu caráter. Edmund Bertram tem falhas, como todos nós. Mas Fanny não tem e isso é que a separa dos outros e para mim, merecia um herói do mesmo nível.

 

Nem Edmund nem Henry eram indicados. Confesso, eu quase que me converti a Henry Crawford... mas no fundo no fundo, a conquista por Fanny era apenas mais um jogo para ele, se a cativasse, ela seria um estupendo troféu e a prova de que ele conseguia o apreço de todas as mulheres que desejava.

 

Edmund não tem a solidez que aparenta. A sua retidão não tem bases fortes... como facilmente verificamos no seu romance com Mary Crawford. A paixão por Fanny surge no último capítulo, sem grandes especificações pela autora - talvez porque nem ela soubesse bem como o fazer - surge como uma alternativa ao ideal de mulher que ele ficcionara em Mary Crawford.

 

Tenho a certeza que Fanny teve um casamento feliz. Sem sombra para dúvidas. Mas, um pouco no seguimento da ideia da emancipação da mulher seguida pelo artigo acima citado, se Fanny tivesse ficado sozinha? O que teria sido dela se Edmund nunca abrisse os olhos?

 

Julgo que uma eterna devotada a Lady Bertram... e no geral, à família. Talvez tenha sido esta a conclusão a que Jane chegou, e juntá-la com o primo fosse o final mais feliz que se lhe podia arranjar.

 

A meu ver era impossível juntá-la com Henry, tal casamento estava destinado ao fracasso... um pouco à semelhança de Marianne com Willoughby. Os primeiros anos de casados seriam, eventualmente, envernizados de felicidade. a dedicação de Fanny seria, creio, inabalável... mas a dele?

 

Mansfield mostra-nos os perigos da educação, ou melhor, da má condução da educação... e é extremamente difícil corrigir valores base errados. Henry cresceu numa casa em que o casamento era desrespeitado continuamente, era aquele o exemplo. Mais tarde, levou uma vida boémia que lhe deu vícios e vaidades complicadas de substituir. Não digo que fosse impossível mudar... mas implicava uma profunda necessidade de alterar o carácter, uma consciência concreta dos seus erros e vícios e julgo que Henry nunca conseguiu deixar de lado a sua vaidade.

 

Chego então à conclusão que Jane Austen viu-se em trabalhos (quiçá!) para trazer felicidade plena à nossa heroína. Mas de uma outra coisa tenho certeza, Edmund foi a escolha de Fanny, sempre. Porém, gostava que Fanny encontrasse na sua vida um Edward Ferrars pois sempre considerei o seu carácter muito próximo do de Fanny. Que vos parece?

Fanny e suas versões.

Não acredito que uma adaptação para a televisão/cinema tenha de ser totalmente fiel a cada vírgula de um livro no qual o seu argumento se baseie. Tenho a certeza de que já teria deixado aqui esta minha afirmação. Embora goste de ver um filme ou série que segue a narrativa de um livro, não me incomoda que a versão filmada tome alguma liberdade; o oposto seria omitir a criatividade de uma obra.  Contudo, não posso também deixar de dizer que o único factor que me transtorna um pouco é quando uma filme ou série foge à essência da obra literária. Isto já acho um pouco irritante.

Se nunca tivesse lido Mansfield Park, se esta obra não tivesse se tornado uma das minhas preferidas e  se nunca tivesse tido o prazer de conhecer os pensamentos e acções de Fanny Price,  tenho a convicção de que toleraria melhor as versões de 1999 e de 2007.

Sem entrar em outros detalhes das duas versões - e isto levaria muitos parágrafos - gostaria apenas de centrar a atenção na forma como Fanny Price foi representada em ambas a versões.

 

 

MANSFIELD PARK | 1999 | Miramax 

Direcção e argumento: Patricia Rozema

 

Fanny Price -  Frances O'Connor

 

Frances O'Connor cria uma Fanny Price com vitalidade e energia. Por momentos, não sei bem se estou a ver Fanny Price, Elizabeth Bennet ou a própria Jane Austen. Concluo que Fanny Price não é, de certeza… Acho que nesta versão há um pouco esta intenção, de nos mostrar uma Fanny que, no fundo, é uma Elizabeth Bennet e que diz umas frases de Jane Austen. A energia de Fanny está na força do seu carácter e da sua determinação em ser correcta; e, não propriamente em descer escadas a correr e andar a saltitar por Mansfield Park. Há vários momentos, ao longo do filme, em que a vemos a ser exactamente o oposto de Fanny; ou seja, ao contrário de ser silenciosa e obediente, Frances/Fanny responde precipitada, apaixonada e veementemente. Há momentos em que mostra-se muito distante da nossa discreta Fanny.

 



 -MANSFIELD PARK |2007 | ITV  

Direcção:  Iain B. MacDonald | Argumento: Maggie Wadey


Fanny Price - Billie Piper

Com Billie Piper assistimos uma Fanny Price mais infantilizada. Melhor dizendo, uma Fanny mais nova e ainda menina. Também ela, enérgica e vivaz. Surge, também,  a correr e a saltitar por Mansfield Park.  Mostra-se mais frágil, observadora, doce e silenciosa; contudo, não tem a fibra de carácter, o tipo físico e a maneira de estar de Fanny Price que Jane Austen descreve. Billie Piper, mesmo sendo bela, foge ao tipo físico frágil que a Fanny Price deveria apresentar e, arrisco-me a dizer, tem até um ar sensual que em nada condiz com uma personagem de Jane Austen. Outro aspecto físico que me incomodou foi o facto dela ter sido caracterizada em grande parte do filme com o cabelo desgrenhado. Sei que este aspecto foge ao domínio da interpretação da actriz, mas certo é que influencia a forma como a vemos no seu todo.

 

 

 

Há um aspecto de que gostei em Billie Piper: ela conseguiu, algumas vezes, demonstrar a desconfiança que tinha em relação à Mary Crawford; bem como a mágoa de ter sido preterida pelo primo surgia como um sentimento muito evidente. Este é um mérito que não consigo encontrar em Frances O'Connor.

Apesar de liberdade criativa que cada argumento adaptado tem direito, bem como o seu próprio enfoque, desgosta-me profundamente que uma história tão densa e profunda como Mansfield Park e a sua personagem principal tenham sido desenhadas de uma forma tão superficial. Aponto o dedo mais ao argumento de ambos os filmes do que propriamente às actrizes.

Uma certeza é muito viva para mim: Fanny Price merecia ser melhor apresentada. 

 

Razões de impopularidade.

Fanny não é marcante, forte, fulgurante, saltitante, destemida ou cómica. Fanny é constante, séria, frágil, de saúde e constituição delicada, firme e discreta. Estas não são virtudes que chamem a atenção ou que façam com grande parte dos leitores afirmem: "Como eu queria ser como Fanny!". Não. É mais certo afirmar que Fanny é mais seguramente vista como passiva, conformada, enfadonha e sem qualquer tipo de graça.

Então, não causa estranheza constatar que Fanny Price não desperte simpatia e que seja a heroína mal amada.

A personalidade de Fanny Price é grandemente determinada pelo meio que a cerca. A sua passividade e conformismo quanto ao seu papel e destino naquela casa geraram-se pela forma como foi tratada desde o momento de que saiu do seu próprio lar. Ela é da família mas a fronteira foi delimitada desde o início: era a parente pobre beneficiada pela caridade do tios. Dado isto, Fanny procurou sempre ser útil e grata; mesmo quando tratada injustamente. Salvou-lhe da tristeza da sua condição a generosidade e afecto de seu primo Edmund. Porem, até mesmo a sua condição física débil resulta em grande medida de ser-lhe negado conforto.

Apesar do seu papel em Mansfield ser claro penso, muitas vezes, que o caminho mais conveniente para Fanny teria sido ela tornar-se numa pessoa manipuladora, bajuladora e de má índole. Se ela tivesse adoptado uma postura de lisonja para com a sua Tia Norris, não teria esta a tratado com mais brandura? Se ela tivesse sido uma cúmplice de suas primas, não teria alcançado outro posto em Mansfield? Teria sido tão mais fácil sobreviver com regalias, conforto e estima… Acho que até os leitores a achariam mais atraente se ela tivesse sido desvencilhada e lutadora.

O único aliado de Fanny é a virtude. Ela é, com certeza, uma personagem que personifica a virtude. Não cede, não esmorece, não vacila. Mesmo que veja o seu próprio nome e bem-estar posto em causa, ela não pestaneja. Convenhamos, nos moldes actuais, isto não desperta muita simpatia. No fundo, não queremos heroínas virtuosas. Se Fanny cedesse a Henry Crawford ou se rebelasse contra a própria família fria e opressora, não a olharíamos com mais simpatia? Não pensaríamos secretamente "É assim mesmo, Fanny. Tens fibra!"? 

O mais curioso nisto tudo é que as únicas pessoas que viram a grandeza de Fanny Price foram os dois personagens de carácter mais duvidoso: os Crawford. Ambos, Henry e Mary, viram quem realmente Fanny era e o seu valor. 

Fanny não tem a presença de espírito de Emma Woodhouse, não tem a personalidade apaixonada de Marianne Dashwood, não é frontal e saltitante como Elizabeth Bennet, não tem a frescura e vitalidade de Catherine Morland, não tem a classe de Elinor Dashwood e não tem a elegância de Anne Elliot. Fanny é apenas alguém que encara a sua vida existe para servir aos outros, para ser grata e para ser correcta.

Fanny não é, de facto, popular. Se Fanny Price fosse nossa contemporânea nunca seria capa da revista Caras. Imagino-a como alguém anónima que estaria em alguma obra humanitária a fazer a diferença na vida de muitas pessoas. Portanto, não me causa tanta estranheza que ela seja uma heroína impopular e mal-amada. Ela seria (e é) autêntica. Não seria uma pessoa ofuscante mas seria impressionante para quem a quisesse conhecer.