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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

No Topo e Abaixo, a Distinção de Classes em Emma de Jane Austen

Título Original: Above and Below, Class Distinction in Jane Austen's Emma

Retirado da Revista Costume Chronicles (Nov-Dez 2010)

Autor do Artigo: M. J. Samuelson

Traduzido e Adaptado por Clara Ferreira

 

 

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Os romances de Jane Austen não são normalmente lidos pelos seus comentários sociais, ou por qualquer ideia de como seriam as classes sociais nos inícios do séc. XIX. Contudo, nas entre linhas, podemos encontrar variados pontos de vista sobre diferentes aspectos acerca do quotidiano para além dos jardins. Emma, publicado ainda em vida, pode ser considerado o romance mais provinciano de Jane Austen, confinado ao quotidiano e preocupações pessoais de um pequeno grupo de pessoas. É em Emma que encontramos um comentário distinto da vida social britânica, coisa que não se encontra nos romances daquele tempo.

 

Emma Woodhouse é uma personagem que, quando nos é primeiramente apresentada, tem algo em comum com os Darcys deste mundo. Ela vem do dinheiro, é a filha de um “gentleman”, e é ela a herdeira de uma fortuna muito confortável. Ela não precisa de casar, tal como a mesma o diz – uma característica que a separa de quase todas as outras heroínas dos romances de Jane Austen.

 

 

O romance está repleto de distinções de classes e várias regras sobre como uma Senhora como Emma Woodhouse deve interagir com a comunidade. Highbury é uma vila pequena, ou melhor, o cenário de terras que as famílias como os Woodhouses e os Knightleys percorrem. Os Woodhouses não se associam com famílias como os Coles, que ganharam dinheiro através do comércio. Emma não tem nenhum par na mesma situação que ela, como nos repete constantemente Mr. Knightley e também Mrs. Weston – a sua associação com Harriet Smoth nunca aconteceria se Emma não estivesse tão aborrecida e em busca de um novo projecto, e se houvesse uma sociedade feminina da sua idade com quem pudesse estar.

 

A pobreza gentil da família Bates e o facto de Jane Fairfax se ver forçada a procurar emprego como governanta, está constantemente a ser alertado aos leitores como contraste da situação de Emma. Jane pode ter sido a aliada natural de Emma e a pouca amizade entre ambas não se baseia em questões económicas. Contudo, Jane sofre um pouco pela indiferença de Emma. Jane é mais parecida com as outras heroínas de Miss Austen até pela sua história de amor que acaba por ter um final feliz. As diferenças entre Jane e Emma são todas económicas – elas estão separadas basicamente por uma lacuna de classes. A única forma de Jane sair é casando-se e Emma não precisa de qualquer género de salvamento nessa questão. É entre estas duas personagens que podemos encontrar as maiores críticas de Miss Austen. A situação das mulheres neste tempo era precária, e Miss Austen não é tímida e mostra-o sempre, mesmo enquanto escreve finais felizes para todas elas.

 

Mr. Elton, o imperioso clérigo ridículo de Miss Austen, joga um papel diferente na subida social. Parte do desprezo de Emma para com Mr. Elton está na mentalidade dele, na busca de fortuna. Ele acreditava que ao casar com Emma se estaria a auto-elevar socialmente, e ela confirma isso ao leitor, acreditando que Mr. Elton não estava tão apaixonado por ela quanto pela sua fortuna. Podemos facilmente acreditar nisto depois de sabermos que se casou com uma mulher odiosa apenas pelo dote que trazia.

 

Emma serve como o foco para a subtil crítica dos preconceitos de classes. Ela sente que se deve ter compaixão pelos pobres e desempenha o seu dever de entregar cestos e cuidar deles. O “amado” de Harriet Smith, o agricultor Robert Martin, sai da esfera de percepção de Emma, pois nem é pobre nem suficientemente rico para tal. Ela parece nunca sentir a verdadeira diferença que existe entre ela e Harriet, assunto que é bem tratado por Mr. Knightley e Mr. Elton. Harriet é a filha natural de ninguém sabe bem quem e as suas origens são possivelmente de natureza adúltera. Histórias de tais crianças eram segredos por abrir no período da Regência e Miss Austen nunca se abstém de aludir a tais segredos também nos outros romances. Com Harriet ela confronta directamente a questão (e dá a Harriet um final muito mais feliz do que aquele que teriam as verdadeiras crianças na sua posição). Jane Austen nunca é directamente crítica nestas atitudes, mas é fácil sentir que Emma é uma heroína menos amada e que é suposto nós sentirmos as falhas dela bem para além do seu namorico com Frank Churchill ou a rudeza para com Miss Bates.

 

Mesmo antes de se ler Emma, descobrimos que essa obra foi dedicada, a seu pedido, ao Príncipe Regente. Na altura em que Emma foi publicado (1815), Jane Austen já era conhecida e já tinha ganho a atenção das massas. Que ela tenha atraído as atenções de Sua Alteza não é surpreendente – Miss Austen era respeitável e escreveu romances muito populares dentro de círculos respeitáveis. (…) Que Emma deva incluir uma crítica social e esteja prefaciada por uma dedicatória ao Príncipe Regente é algo muito intrigante.

 

Todos os romances de Jane Austen incluem críticas e exames às atitudes de classe, mas Emma sobressai, por ser esse o tema fulcral da históra. Emma está normalmente nos últimos lugares da lista de preferências das obras de Jane Austen, mas é uma aparência inteligente que esconde uma crítica social profunda. (…)

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