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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Anne Elliot, a Heroína Tranquila de Jane Austen

Título Original: Anne Elliot, the Jane Austen's Quiet Heroine

Retirado da Revista Costume Chronicles (Nov-Dez 2010)

Autor do Artigo: Lianne M. Bernardo

Traduzido e Adaptado por Clara Ferreira

 

 

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Persuasão de Jane Austen foi o último romance completo antes da sua morte em 1817 e é, em muitas maneiras, diferente de todos os seus trabalhos prévios. Grande parte da distinção está na própria heroína, Anne Elliot, na sua situação e a forma como ela responde a tudo o que se passa à sua volta. Anne já passou a sua adolescência e , ao contrário de Lizzy Bennet ou Emma Woodhouse, que encontram o seu amor e felicidade ao longo da história, Anne, encontrou o seu verdadeiro amor já antes do início do romance, com dezanove anos apaixonou-se por Frederick Wentworth. Foi persuadida a desistir dessa relação tanto porque a sua família o considerava insignificante e também devido à sua ocupação perigosa na Marinha no decorrer das Guerras Napoleónicas.

 

No início de Persuasão é claro que ela se arrepende dessa decisão tomada oito anos antes e que lhe enevoou todo o prazer da juventude. A sensação de melancolia está sempre presente na sua personagem e ela está resignada a viver o resto da vida com essa decisão. O regresso de Wentworth à zona (e à sua vida) quando a sua irmã e cunhado se mudam para Kellynch Hall, a antiga morada dos Elliot, traz-lhe à novamente à cabeça o arrependimento, especialmente pela forma como ele se comporta para com ela – distante e com um respeito gélido, uma clara indicação de que a sua decisão o magoou profundamente.

 

 

Existe também um elemento de solidão em Anne. A pessoa mais próxima dela é Lady Russell, a sua madrinha e vizinha que a compreende e olha por ela. Anne está muito afastada da família, quase como uma estranha; o seu pai não tem qualquer afecto por ela; a sua irmã mais velha, Elizabeth, ignora-a; e a sua irmã mais nova, Mary, toma-a por garantida. É claro pela narrativa que ela era muito chegada à sua falecida mãe, que era tão moderada, querida e altruísta quanto ela. Anne ficou muito afectada pela sua morte daí o facto de ter sido tirada da escola aos 14 anos. Dizer que Anne carrega consigo o peso da solidão, não significa que não tenha amigos ou esteja isolada da sociedade: os seus parentes, os Musgroves, recebem-na de braços abertos sempre que os visita em Uppercross. Ela também tem velhos amigos de escola, como Mrs. Smith, que ela visita quando se reúne com a família em Bath. Mas ela não tem nenhuma Jane Bennet ou Marianne Dashwood para se apoiar e confidenciar nas alturas difícieis. A sua relação com Lady Russell assemelha-se mais a uma espécie de mentor ou mãe substituta do que a uma confidente e para além disso, por vezes o interesse de Lady Russell no estatuto social e nas conexões sociais “embacia” os seus conselhos e provoca danos na sua relação. Esta sensação de solidão em Anne é especialmente evidente durante a sua estadia com Mary e os Musgroves; por exemplo, quando toca piano mas recebe pouco reconhecimento ou aplausos. Percebemos também que ela não se importa muito por essa falta de atenção porque ela nunca conheceu a felicidade de ser ouvida, excluindo um curto período de tempo em que ela era pequena, uma referência de quando a sua mãe era viva.

 

O estilo utilizado em Persuasão acentua este sentimento de solidão. O romance é muito introspectivo com muito pouco diálogo, em comparação com outras das suas obras. As conversas completas das personagens são substituídas por um sumário geral sobre a natureza e resultado da interacção. Os pensamentos de Anne e os seus sentimentos sobre as situações que a rodeiam são frequentemente escritos através da narrativa e não através de conversas das personagens ou correspondência entre elas. Este estilo reforça o quanto Anne guarda para si e através da expressão dos pensamentos e sentimentos que ela não partilha com Lady Russell, aproxima o leitor à personagem, que funciona como uma espécie de confidente de Anne, mais do que um mero espectador.

Embora seja ignorada e desprezada pelas pessoas à sua volta, Anne não é maldosa para com eles nem passiva; ela oferece constantemente o seu apoio e assistência de todas as maneiras que pode, seja tomando conta do seu sobrinho aleijado ou tratando Louisa depois do acidente, e nunca procura nenhuma recompensa por isso. Também não se queixa das tarefas de que é incumbida; as suas acções são altruístas, pensando sempre nos problemas e desconforto das outras pessoas em vez dos seus problemas. Há vários exemplos em que ela poderia ter actuado de forma mais insensível e resguardar a sua pessoa, mas ela não o faz por uma questão de respeito de decoro, mesmo que essa pessoa não a trate com a mesma cortesia. Ela pode não dizer muito, mas definitivamente que não é uma pessoa tímida; ela mostra um grande conhecimento de literatura nas suas discussões com o Capitão Benwick e fala com firmeza sobre as suas opiniões quando debate com o Capitão Harville sobre quem ama durante mais tempo, homens ou mulheres. A forma como ela se comporta com outros, seja qual for a forma como é tratada, reflecte quão forte é o seu carácter.

 

As adaptações de 1995 e 2007 focam-se em diferentes aspectos da personalidade de Anne. O seu retrato no primeiro filme, foca-se mais na sua persistente calma seja qual for a situação, seja qual for o resultado do terrível acidente ou conflitos familiares. Em contraste, o filme recente enfatiza mais a sua solidão; a distância na família, os seus passeios solitários, a sua falta de companhia quando Wentworth, Louisa e os outros fazem uma caminhada para ir conhecer o noivo e Henrroetta. Quando ela fala, não é tão eloquente quanto a interpretação de 1995, mas mais por um reflexo da sua melancolia e solidão do que por falta de opinião. Ela é uma ajuda em qualquer situação tal como no livro e na prévia adaptação, mas ao mesmo tempo, a recente Anne aparece mais isolada das pessoas que a rodeiam.

 

Persuasão é muito diferente de qualquer dos romances prévios de Jane Austen, tanto no seu tom, no plano, no estilo e no facto de a heroína ser descrita mais subtilmente. Tivesse Jane Asuten vivido para editar totalmente o romance, e talvez ele fosse um pouco diferente com muitos casos e momentos clarificados e possivelmente com mais diálogo entre os personagens principais. Mas disso nunca teremos qualquer tipo de certeza. Todavia, Anne Elliot toma um lugar importante na distinção da mudança de estilo de Jane Austen e no contraste entre a sua solidão e dedicação, que faz dela uma personagem única com uma força tranquila que é admirável tendo em conta os parentes cheios de esquemas e manipuladores, uma entrega imediata à família e o tormento de assistir à re-entrada do seu verdadeiro amor na sua vida mas sem poder fazer parte dela.

 

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