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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Questão de Gosto - Parte II

Retirado do site: JASBRA
Autor do Artigo: Gillian Dooley
Traduzido: Adriana Zardini
Adaptado por Clara Ferreira

 

A música tornou-se para Marianne, na sua nova e madura disposição de ânimo, mais uma disciplina do que uma condescendência, o que a levou a fazer planos de se levantar às seis horas e “dividir cada momento entre a música e a leitura”. A leitura para Jane Austen é geralmente um sinal de seriedade, e essa ligação entre as duas artes dá à música o mesmo status. (...) Creio que a música continuaria a ter um papel importante na sua vida de casada, como lazer e, talvez, até mesmo como uma válvula de escape – ela não perderia totalmente a sua sensibilidade – e também para o prazer de seu marido, a quem ela se tornaria, em seu devido tempo, uma esposa totalmente devotada. Assim, para Marianne, a música pode funcionar tanto para o bem como para o mal; pode ser uma condescendência para com sua tristeza ou um caminho para a autodisciplina; pode atrair tanto um pretendente indigno como um marido respeitável.

 

Para Elinor, a música não possui o mesmo significado. “Elinor não era musicista e nem tinha a presunção de ser”. Elinor é como se fosse o padrão de moralidade do romance. É tentador interpretar isso como uma rejeição à música, até descobrirmos que o inútil de seu irmão, John, também não é músico. A frase em questão é “nem tinha a presunção de ser”. A presunção [no original em inglês, affectation: afetação, presunção] é sempre o alvo da ironia de Jane Austen, e a mensagem aqui é clara: Elinor conhece-se a si mesma e sabe do que gosta, e não finge gostar que não tem o menor interesse. Elinor desenvolveu muito cedo a habilidade de diferenciar o que é tacto daquilo que é falta de sinceridade.

 

(...)

 

Mansfield Park convida a uma comparação com Sensibilidade e Bom Senso, devido ao tom moral sério que parece afastá-los do outros romances mais leves, e por causa das semelhanças superficiais entre Elinor e Fanny, duas heroínas cumpridoras de seus deveres e sem talento para a música. No entanto, Elinor e Fanny apresentam tanto diferenças como semelhanças, inclusive com relação ao gosto musical. Elinor não gosta de música, ao passo que Fanny sente-se verdadeiramente atraída pela música quando Mary Crawford toca para ela, apesar do ciúme que sente pela admiração que Edmund nutre por Mary. A primeira vez que Fanny ouve a harpa fica “maravilhada pela performance, e... não mostra falta de gosto”, sendo que, mais tarde, na festa na casa dos Grants, Fanny sente-se mais feliz em ouvir a harpa do que participar dos jogos de cartas e das conversas. Elinor, nessa situação, preferiria procurar outra ocupação. Além do mais, há várias outras semelhanças interessantes entre Fanny e Marianne. Suas habilidades musicais são díspares, assim como suas personalidades, mas seus gostos têm muito em comum. Pam Perkins escreve: “Com relação ao forte sentimento romântico as duas mulheres são muito parecidas”, e acrescenta, “Fanny e Marianne são heroínas atípicas na obra de Austen, pois ambas preferem paisagens a pessoas”.

 

Em Sensibilidade e Bom Senso a música possui o significado de mostrar os extremos dos sentimentos de Marianne, que fica totalmente submersa quando toca piano, e de mostrar a presunção e falsidade de personagens como o de Lady Middleton. A música apresenta uma certa utilidade social, mas pode ser entediante para aqueles que não possuem nenhuma aptidão musical. (...) Austen usa a mudança de Marianne com relação à música para mostrar algo mais profundo em sua atitude com relação a ela mesma e ao seu mundo. A musicalidade não é nem um vício nem uma virtude: Marianne é musical por natureza; Elinor, não. Essas características são usadas para refletir outras qualidades, como a honestidade em Elinor, e a imprudência juvenil e eventual imaturidade de Marianne, assim como para promover um insight mais profundo dentro de seus caracteres e personalidades.