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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

A independência de uma mulher - Colleen McCullough

Nunca tinha lido nada desta autora, apesar de conhecer e lembrar vagamente a história de 'Pássaros feridos', a obra por ela escrita e que deu origem a uma série com o mesmo nome nos anos oitenta do século passado. Sempre achei que não iria gostar da escrita dela, talvez por pensar que seria uma narrativa cansativa e desinteressante. É daquelas coisas... não se pode dizer que não se gosta até se provar!

 

"A independência de uma mulher", tal como diz na capa desta edição que li, 'retoma um dos grandes clássicos de sempre, Orgulho e Preconceito, de Jane Austen'. Retoma que é como quem diz; afinal retomou a história mas passados quase vinte anos e muita, muita coisa aconteceu entretanto. No entanto, esta obra pretende dar a conhecer ao leitor um dos possíveis futuros de Mary Bennet, a patinho-feio da família Bennet, a mocinha insuportavelmente metida a erudita que todos pareciam abominar e cujo destino, diz-nos Colleen McCullough, foi o de cuidar sozinha da mãe até à morte desta. Ou seja foram mais dezassete anos de reclusão numa casa apenas rodeada por livros e pela sua própria solidão. Ora, isso parece tê-la mudado pois, assim que a mãe falece tranquilamente (aquilo dos nervos afinal deu-lhe uma morte santa...), Mary Bennet é-nos mostrada como uma mulher intensamente mudada, com uma personalidade forte e, (prepararem-se...) linda! Tão linda que é comparada à irmã Elizabeth! No entanto, lá para o fim do livro ainda é caracterizada pelo seu amado (sim, ela vai ter essa sorte...) como tendo 'uma propensão natural para o desastre'. E a verdade é que ela meteu-se em cada uma!

 

O que mais me surpreendeu neste livro foi encontrar alguns dos meus queridos personagens de Orgulho e Preconceito completamente transfigurados, não tanto ao nível físico (claro que envelheceram!) mas com uma vida que nunca imaginaríamos depois de terminar de ler a obra de Jane Austen. Alguns exemplos são os que transcrevo a seguir, aos quais nem vou fazer comentários, mas que por si sós bastam para se fazer uma pequena ideia daquilo que é o livro:

 

"Com um franzir de cenho, Darcy levantou-se e ficou por um momento com os olhos vítreos presos nas fileiras de registos parlamentares encadrenados a pele. Finalmente, a velha abantesma estava morta. Por maior que fosse o amor, ou por mais atormentadora a necessidade de consumar esse amor, pensou, era vil ter de casar abaixo do seu nível. E ainda por cima não valera o esforço. A minha bela e régia Elizabeth é tão execrável como a irmã Mary. Tenho um rapaz frágil e efeminado e quatro malfadadas raparigas. Um ponto para si, senhora Bennet! Que o diabo a carregue a si e às suas gloriosas filhas pois o preço que paguei foi demasiado alto!"

 

"- É claro que as tuas críticas à minha pessoa não são um fenómeno novo, sei bem disso. Ao início, há vinte anos, adoravas chamar-me de... presumido, arrogante, orgulhoso e incorrecto. Os meus parabéns por teres encontrado um novo conjunto de epítetos. Mas isso não me atinge...Não gosto dos humores  e das lágrimas femininas. O nosso casamento não assenta numa rocha, minha senhora, desloca-se sobre areias movediças. Uma base criada por ti. Não me obedeces, embora isso faça parte dos teus votos matrimoniais. Falta-te o temperamento adequado, e a tua linguagem raia a indecência. E o que é pior, a tua conduta tem vindo a agravar-se rapidamente. Já não tenho a certeza de que sejas capaz de te comportar de forma mais decente do que a tua irmã Lydia" - palavras de um Darcy cinquentão para uma Lizzie quarentona.

  

(Que tal isto para desvalorizar a imagem de galã de Fitzwilliam Darcy??!!)

 

Eu não resisto. São spoilers, claro. Mas não consigo resistir ao facto de contar que a relação entre Darcy e Charles Bingley é a certa altura caracterizada pela autora como uma relação quase homossexual ou que Bingley tem uma amante na jamaica com quem tem já vários filhos, além da dúzia que tem com Jane; ou que Mary, logo no início da história, em conversa com uma abismada Lizzie, sugere que Charles coloque uma rolha no dito cujo de forma a deixar de engravidar constantemente a esposa Jane.

 

E mais não digo, senão estrago a surpresa a quem quiser ler! Desengane-se, no entanto, quem espera uma história de amor bem ao jeito austeniano. Há histórias de amor mas são abordadas quase fugazmente. O resto é tudo uma grande aventura, com bandidos, assassínios e viagens pelo interior de Inglaterra. Para um bom admirador de Orgulho e Preconceito e para que este não fique muito desapontado, conto um pequeno segredo:...all ends well! Very well! 

 

 

Gostava ainda de destacar a edição que li, cuja figura coloco acima, retirada do site da Fnac. Trata-se de uma edição de bolso recente da Bertrand. Normalmente não compro edições de bolso porque o seu manuseamento é muito difícil e acaba por prejudicar a leitura e o interesse na história. Todavia, esta agradou-me bastante. Primeiro, porque a capa é bonita e quase nos confunde pois não parece um livro de bolso; depois, ter o livro nas mãos é agradável, não só pela suavidade do papel mas também pelo bom manuseamento que nos proporciona e que nos incentiva a continuar a leitura. Mesmo quando as páginas começam a pesar na mão esquerda, a leitura não fica dificultada e garanto que o livro que li encontra-se como se estivesse novo, sem aquelas rugas inestéticas que os outros livros de bolso apresentam quando acabámos a leitura e de tanto que forçamos a sua abertura.

 

Quanto à tradução do texto para português, encontrei algumas gralhas. Contudo, não devem ser gralhas a sério. Eu é que tenho de me actualizar nisto do Novo Acordo Ortográfico. Creio que observei mais 'erros' não na correcta escrita das palavras mas mais em termos de formação e pontuação de frases, de sintaxe.

 

But... Nota dez!... Aconselho, sem dúvida!

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