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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Razões de impopularidade.

Fanny não é marcante, forte, fulgurante, saltitante, destemida ou cómica. Fanny é constante, séria, frágil, de saúde e constituição delicada, firme e discreta. Estas não são virtudes que chamem a atenção ou que façam com grande parte dos leitores afirmem: "Como eu queria ser como Fanny!". Não. É mais certo afirmar que Fanny é mais seguramente vista como passiva, conformada, enfadonha e sem qualquer tipo de graça.

Então, não causa estranheza constatar que Fanny Price não desperte simpatia e que seja a heroína mal amada.

A personalidade de Fanny Price é grandemente determinada pelo meio que a cerca. A sua passividade e conformismo quanto ao seu papel e destino naquela casa geraram-se pela forma como foi tratada desde o momento de que saiu do seu próprio lar. Ela é da família mas a fronteira foi delimitada desde o início: era a parente pobre beneficiada pela caridade do tios. Dado isto, Fanny procurou sempre ser útil e grata; mesmo quando tratada injustamente. Salvou-lhe da tristeza da sua condição a generosidade e afecto de seu primo Edmund. Porem, até mesmo a sua condição física débil resulta em grande medida de ser-lhe negado conforto.

Apesar do seu papel em Mansfield ser claro penso, muitas vezes, que o caminho mais conveniente para Fanny teria sido ela tornar-se numa pessoa manipuladora, bajuladora e de má índole. Se ela tivesse adoptado uma postura de lisonja para com a sua Tia Norris, não teria esta a tratado com mais brandura? Se ela tivesse sido uma cúmplice de suas primas, não teria alcançado outro posto em Mansfield? Teria sido tão mais fácil sobreviver com regalias, conforto e estima… Acho que até os leitores a achariam mais atraente se ela tivesse sido desvencilhada e lutadora.

O único aliado de Fanny é a virtude. Ela é, com certeza, uma personagem que personifica a virtude. Não cede, não esmorece, não vacila. Mesmo que veja o seu próprio nome e bem-estar posto em causa, ela não pestaneja. Convenhamos, nos moldes actuais, isto não desperta muita simpatia. No fundo, não queremos heroínas virtuosas. Se Fanny cedesse a Henry Crawford ou se rebelasse contra a própria família fria e opressora, não a olharíamos com mais simpatia? Não pensaríamos secretamente "É assim mesmo, Fanny. Tens fibra!"? 

O mais curioso nisto tudo é que as únicas pessoas que viram a grandeza de Fanny Price foram os dois personagens de carácter mais duvidoso: os Crawford. Ambos, Henry e Mary, viram quem realmente Fanny era e o seu valor. 

Fanny não tem a presença de espírito de Emma Woodhouse, não tem a personalidade apaixonada de Marianne Dashwood, não é frontal e saltitante como Elizabeth Bennet, não tem a frescura e vitalidade de Catherine Morland, não tem a classe de Elinor Dashwood e não tem a elegância de Anne Elliot. Fanny é apenas alguém que encara a sua vida existe para servir aos outros, para ser grata e para ser correcta.

Fanny não é, de facto, popular. Se Fanny Price fosse nossa contemporânea nunca seria capa da revista Caras. Imagino-a como alguém anónima que estaria em alguma obra humanitária a fazer a diferença na vida de muitas pessoas. Portanto, não me causa tanta estranheza que ela seja uma heroína impopular e mal-amada. Ela seria (e é) autêntica. Não seria uma pessoa ofuscante mas seria impressionante para quem a quisesse conhecer.

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