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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Shortstory 2 / Parte 47

Tinham feito uma pausa. Anne pretendia contar tudo, exorcizar de uma só vez aqueles fantasmas tão grandes que tanto a haviam prostrado e humilhado, mas não conseguira. As lágrimas tinham-lhe corrido em catadupa e aos soluços, só de pensar como tinha chegado ao maldito casarão e como se tinha deixado enganar tão facilmente pelo louco que era seu primo.

 

Então os outros tinham deixado o quarto, ficando a acompanhá-la apenas Emma e Wentworth. Ao princípio, tentavam não falar daquela situação terrível que Anne vivera, mas depois Emma já não conseguia falar de outras coisas.

- Desculpa-me querida Anne… - disse ela – mas tenho uma pergunta e não consigo deixar de a fazer, embora saiba que talvez a devesse deixar para mais tarde…

Anne engoliu em golinhos pequenos a água com açúcar que lhe haviam trazido e retomou a cor do rosto. Wentworth estava sentado na cadeira e tocava-lhe nas mãos.

- Não faz mal, Emma, eu entendo – Anne sorriu – podes perguntar, não faz mal…

 

Emma tomou então coragem e inquiriu:

- Como é que Mary não ficou preocupada com a tua ausência, se não chegaste a falar com ela antes de partires? E como é que as pessoas receberam cartas e bilhetes teus a falar nos preparativos para o casamento com aquele… com aquele…

 

Anne pousou o copo vazio nas mãos de Wentworth e respirou fundo.

 

- Eu nunca escrevi nada. Ele escreveu a Mary, aliás deve ter-lhe deixado logo um bilhete, na altura em que me levou, porque eu não vi, mas parece que deixou um bilhete em que eu falava em ir ter com Lady Russell para preparar o noivado. E a Lady Russell, parece que também escreveu em meu nome a contar outras mentiras, inventando relacionamentos com pessoas aparentadas com a família real. Foi o que ele disse. E também chegou a mostrar-me as cartas que escrevia em meu nome… a letra era igual… era igual à minha… - e Anne estremeceu, soltando algumas lágrimas.

 

Emma e Wentworth apressaram-se a acalmá-la.

- Pronto, pronto, não te inquietes mais. – disse o apaixonado.

- Ele era muito hábil – disse Anne – Parece que não é nova a sua capacidade em falsificar assinaturas e letras. Chegou a confessar-me que lhe bastava ver uma vez a escrita de alguém para a imitar com perfeição e ninguém dar por nada…

Emma e Wentworth não duvidavam que fosse possível. Então mudaram de conversa para que Anne não se inquietasse e começaram a falar do tempo e de como eram belos os jardins de Pemberley em qualquer altura do ano.

 

Mas a tranquilidade parecia não ser possível naquele dia. Foram interrompidos pelo som de carruagens a chegar e pelo rebuliço de vozes que falavam alto. Ao princípio não percebiam nada do que se estava a passar. As janelas do quarto onde Anne repousava, não permitiam ver fosse o que fosse do exterior, pois estavam viradas para o lado oposto da mansão e apenas mostravam vislumbres dos jardins e das estufas.

 

Após alguns minutos que pareceram séculos, a chegada de Darcy ao quarto azul também os sobressaltou. Mas ele já trazia novidades e eram tão impressionantes! Anne pousou a cabeça na almofada e Wentworth apertou-lhe mais as mãos, Emma recostou-se na cadeira onde estava sentada. Todos se prepararam para ouvir aquilo que, num tom muito sério, Darcy lhes comunicou.

 

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