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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 44

Vozes voavam à sua volta. Vozes familiares. Não se recordava onde estava. Apenas tinha noção de que tinha sede e de que estava exausta. Vem-lhe à memória o rosto tão adorado de Wentworth e a dor de pensar que nunca mais iria vê-lo. As vozes, as vozes persistem. Lentamente começa a sentir o macio do leito, a frescura dos lençóis e o perfume de relva acabada de ser aparada. O aroma da maresia tinha desaparecido. Imersa numa letargia, percebe que o seu corpo começa a reagir. Os seus olhos abrem-se com alguma dificuldade e vê luz. Está num aposento iluminado pela luz do sol e delicadamente decorado em tons de azul. “Eu consegui! Eu consegui! Estou livre!”.

Gradualmente, Anne Elliot começa a recobrar a consciência. Ao seu lado estava um senhor a examinar os seus pulsos e este, ao se dar conta de que a jovem recobrara os sentidos, apresentou-se como sendo um médico, Mr. Brown.  Anne, naquele momento, soube que estava em segurança e, por isso, descansou. Deu por si a sentir a cabeça a latejar. O médico explicou-lhe que estava demasiadamente desidratada, tinhas alguns ferimentos nos pulsos e tornozelos e alguns sinais de fadiga. Recomendou a ingestão de muitos líquidos, a aplicação de bálsamos nas feridas e repouso num ambiente tranquilo.

Todas estas recomendações transmitiu-as às pessoas que esperavam ansiosamente, do lado de fora do quarto azul, pelo diagnóstico do médico. Referiu ainda que o quer que tenha acontecido causou-lhe grande sofrimento e que deveria ser investigado. Wentworth tinha-se dirigido, logo que o médico saiu do quarto azul, na sua direcção e ouvia ansiosamente tudo o que ele explicava.

Após a partida do médico, estavam todos reunidos: Mr. Darcy, Mrs. Darcy, Georgiana;   e os ocupantes das duas carruagens que chegaram: Mr. Knightley, Wentworth, General Tilney, Fanny e William Price e Edmund Bertram. Foi Emma - habituada a ter posse de toda a informações em todas as situações - quem quebrou o silêncio:

- Afinal, alguém pode explicar o que aconteceu a Anne Elliot?

-Eu sou conhecedora de parte da história – falou Fanny Price em voz baixa – mas… parece que há muito mais por detrás do pouco que sei.

- Miss Price, se não fosse por si, nunca teríamos recuperado a minha adorada Anne! Terá a minha gratidão eterna!– setencia Wentworth.

-Adorada? – questiona Emma, em voz baixa, com um meio sorriso.

- Emma, isto não é altura para este tipo de conjecturas… - recrimina Mr. Knightley, também em voz baixa, mas Emma finge não ouvir…

-Tudo isto é culpa daquele canalha do Elliot! – diz General Tilney – E eu que o julgava um homem de bem e confiável! Revelou-se um safardana!

-Canalha desprezível! – remata Wentworth – só não trato dele com as minhas próprias mãos agora porque a saúde de Anne é mais importante do que tudo, mas o meu cunhado, Almirante Croft está no seu encalço.

- Meus caros senhores, tudo isto ainda está muito confuso para mim e dada a minha condição – Elizabeth acaricia instintivamente a sua barriga e Mr. Darcy coloca-se de imediato do seu lado. Ela continua: – preciso sentar-me e serenar o espírito. Anne está segura e a tratada. Falta-nos saber o que lhe aconteceu. Consigo perceber que cada um sabe um pouco deste infortúnio, por isso, vamos ouvir o que cada um sabe, a ver se isto fica claro. 

General Tilney, homem habituado a agir e a liderar, ia começar a relatar tudo o que sabia e de que forma tinha auxiliado na fuga de Anne quando ouviu-se a sineta do quarto azul a tocar. General Tilney sempre foi pouco dado a tolerar interrupções bruscas mas ele agora sentia-se renascido, de forma que calou-se com uma frase a meio. Todos se entreolharam com um nome a pairar “Anne…”. Dirigiram-se de imediato ao quarto. Anne encontrava-se pálida e fraca mas insistia que tinha de relatar tudo o que lhe aconteceu.

-Preciso tirar isto de dentro de mim. Preciso que me ouçam porque a memória de tudo o que me aconteceu é um fardo demasiado pesado para guardar dentro de mim. Preciso falar! E depois nunca mais quero pensar nisto! Quero esquecer para sempre. – Anne quase que suplicava. – Meu querido Wentworth, preciso de ti ao meu lado, preciso sentir o toque de tuas mãos enquanto falo. Tu és aquele cuja lembrança fez-me sobreviver aos dias de horror que vivi.

Todos acomodaram-se da forma que foi possível e o mais perto que puderam de Anne. Queriam evitar que esta passasse por mais sofrimento, queriam minimizar o seu esforço.

Calma mas, de forma precisa, Anne começou a contar tudo o que lhe acontecera.