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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 43

Sim, a viagem de Anne seria a oportunidade ideal para colocar o seu plano em andamento. Antes de mais, teria de recorrer ao seu amigo. Sabia que não poderia revelar-lhe as suas intenções… teria de apelar para os seus dois pontos fracos: um compromisso de honra e um amor contrariado. Há muito tempo que Mr. Elliot conhecia-o e sabia que um amor contrariado do passado o tinha tornado num homem amargo e insensível. Somente demonstrando-lhe que estaria a passar pelo mesmo é que teria o seu total apoio. E, assim, foi. Depois de naquele dia os dois terem trocado um aperto de mãos, o homem convidou Mr. Elliot a cear e pernoitar na Abadia. Assim, poderiam falar melhor.

- Com todo o prazer, caro Tilney. – aceita Mr. Elliot – sempre fui muito bem recebido por si e a tranquilidade da Abadia é um conforto neste momento de angústia.

-Façamos, então, um passeio pelas alamedas da Abadia e aproveitamos para conversarmos melhor na forma como posso ajudá-lo – convida General Tilney e indica a direcção da porta que permitiria alcançar a parte de trás da casa – Por aqui, se me permite.

Os dois caminhavam lentamente e aspiravam o ar que já se tornava frio. Começaram a conversar sobre a questão do rompimento de Mr. Elliot e este afirmou que acreditava que General Tilney, homem de armas e experiente, saberia aconselhá-lo na melhor forma de contornar toda aquela situação.

-Preciso que me oriente e preciso também que me descubra informações sobre o intruso que me quer roubar o meu mais precioso bem. – afirmou Mr. Elliot.

- Bem? – volveu General Tilney.

-Quero dizer… alguém que é mais importante do que todos os meus bens… - corrigiu Mr. Elliot.

General Tilney era um homem temido pela família porque dominava-a com pulso firme. Não era um homem que aceitasse recusas. Ver que o seu amigo Elliot estava a ser usurpado como um dia ele foi… Custou-lhe… Custou-lhe muito. Começou, então a orientar-lhe de como deveria agir e de como ser firme e persistente. Assegurou-lhe também que iria tentar descobrir dados sobre o intruso em causa. Mr. Elliot informou-lhe que o intruso era um oficial da marinha, ao que o General Tilney afirmou que a tarefa seria, então, bem mais fácil. Acontecia que tinha recebido um convite de um velho amigo seu, Almirante Croft, para passar uma temporada no campo.

- Croft, Almirante Croft? Pois este senhor arrendou a propriedade de meu tio, Sir Walter Elliot e ele é parente do intruso em causa! – exclamou Mr. Elliot.

-Pois, então, considere a minha ajuda concretizada. – disse-lhe General Tilney

 

 

 

A verdade, a real intenção de Mr. Elliot, era outra oposta à que relatou ao General Tilney. Ele não queria conselhos sobre como agir ou informações sobre Wentworth. Ele já possuía todo o conhecimento sobre a vida e percurso de Frederick. Desde o momento em que viu que Anne não voltaria atrás na sua decisão achou ser mais inteligente representar o papel do pretendente rejeitado mas conformado. Não queria perder a oportunidade de usufruir da companhia de Anne nem de ser impedido de ter acesso àquela casa. Então, de imediato, como um camaleão adaptou-se às circunstâncias. Enxergava claramente a modificação ocorrida em Anne e alimentava a certeza de que alguém estaria por detrás disto, um novo afecto. Tinha a consciência de que Anne nunca sentiu por ele nada para além de consideração que pode ter por um primo. Contudo, tinha esperanças de que ela o aprendesse a amar. Um intruso nesta equação veio desequilibrar todo os seus planos para o futuro. Tinha de confirmar as suas suspeitas e descobrir quem ele era. Tendo acesso constante a casa começou a inquirir aqui e acolá; e, veio a saber que Miss Anne Elliot enviava diariamente correspondência para um destinatário fora de Bath. Numa de suas visitas  conseguiu interceptar uma carta de Anne para Wentworth que o criado tinha pousado no móvel de entrada enquanto foi buscar o resto da correspondência da casa. Não era difícil que Anne se correspondesse com Wentworth sem mais ninguém na família se desse conta, simplesmente porque ninguém estava interessado com o que Anne fazia ou deixava de fazer.

A partir daí, com o nome de Frederick em suas mãos, começou a obter dados a seu respeito. Uma das primeiras pessoas a ajudar-lhe, sem se dar conta, foi Lady Russel em uma das tardes em que estava a tomar o chá em casa de Sir Walter. Num dos momentos em que Sir Walter estava preocupado com uma ligeira ruga de seu rosto e observava-se obsessivamente ao espelho, Mr. Elliot consegue com destreza fazer Lady Russel falar.Toda a informação que obteve de Lady Russel foi fundamental para compreender o passado em comum entre Anne e Frederick. Mas não se ficou por aqui, contratou um investigador para levantar toda a informação disponível sobre ele. Enquanto procedia a investigação arquitectou o seu plano e, para isso, precisa de local discreto, distante e desabitado. E, neste ponto do seu plano, entraria a ajuda de General Tilney. Sabia-o possuidor de muitas propriedades. Uma delas enquadrava-se perfeitamente naquilo que planeava: BlackThunder.

Era do conhecimento geral que General Tilney era viúvo há muitos anos. Perdeu a sua esposa quando os seus filhos ainda eram crianças de tenra idade. Embora não fosse apaixonado por sua esposa, tratou-se de um casamento de conveniência ao qual foi forçado aceitar, sentiu-lhe muito a morte. Viu-se despojado pela segunda vez. Na primeira vez, teve de abdicar do seu grande amor. Na segunda vez, perdeu a mãe de seus filhos e a mulher que aprendeu a respeitar pela grandeza de carácter. Caiu numa espiral de amargura e revolta, processo que o transformou. Nesta altura, tornou-se proprietário de uma estranha residência: BlackThunder. Tratava-se de um grande palacete cravado num íngreme penhasco cercado pelo mar. Uma construção sombria e cinzenta. Assemelhava-se a uma fortaleza medieval. Não havia mais casa nenhuma à volta e somente encontrava-se população na cidade vizinha. Naquela região nunca havia bom tempo. Dizia-se, em forma de ditado popular, que o sol nunca chegara àquela localidade. O vento é que era o senhor e rei daquele domínio. Era o local perfeito para a solidão e para o recolhimento. General Tilney passou, pelo menos, cinco anos seguidos em BlackThunder. Desde que retornou nunca mais lá voltou.

Para Mr. Elliot afigurava-se ser o local ideal e, de forma subtil, questionou sobre o local e se seria muito incómodo utilizá-lo durante uns dias para reflexão. General Tilney achou estranho o pedido, dado que BlackThunder há muito estava desabitado; nem sequer tinha criados, somente um caseiro.  Contudo, quis agradar o amigo e reconheceu-lhe o desejo de ficar só e acedeu.

 

 

Anne Elliot chegou sã e salva, depois de uma viagem agradável até à casa da irmã. Encontrou Mary prostrada. Habituada como estava àquele cenário começou de imediato a tentar animá-la e, de facto, não foi uma tarefa muito difícil. Mary queria ser consolada e ser o centro das atenções. Anne estava nas melhor das disposições porque sabia que em breve veria Wentworth. Em questão de um quarto de hora, as duas já faziam uma leve refeição enquanto Mary relatava as últimas novidades e os visitantes que estavam nas redondezas. Referiu que Almirante Croft e Mrs. Croft eram presença constante na casa de seu sogro, bem como o cunhado do Almirante. Mary descreve-o como um homem extremamente bem parecido.

"As minhas cunhadas e outra jovem convidada que está em KellynchHall estão ensandecidas por ele" - informa Mary. Anne questiona quem era a dita jovem. Então, Mary explica em pormenor que os Croft convidaram um grupo de amigos: Sir Thomas Bertram, que conheceu nas suas navegações pelas Índias Orientais; Edmund Bertram, seu filho; Fanny e William Price, seus sobrinhos e o General Tilney. "Se queres que te diga, Anne, aquela Fanny é uma sonsa! Passa a vida a passear com o primo e o irmão, ou a ler; mas cá para mim, ela quer é fisgar um bom pretendente como o Capitão Wentworth! Mas ele seria ideal para uma de minhas cunhadas!" - dispara Mary. 

Anne lembrava-se de ter sido apresentada a Fanny Price no baile de Emma e a impressão com a qual ficou foi a de ser uma jovem extremamente pacata e até socialmente inexperiente. Conhecedora como era dos relatos irreais e exagerados da irmã, tranquilizou-se. Inclusive porque tinha plena confiança nos sentimentos de Wentworth.

Contava ansiosamente cada minuto que faltava para o reencontro. "Haveria felicidade maior do que saber-se amada?" sorriu mentalmente.

Tudo corria bem. Ela não podia suspeitar que a sua viagem não terminaria ali.