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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 42

Chegado ao fim de Agosto, o verão começou a perder o seu vigor. O entusiasmo por longos passeios abrandaram e os dias começaram a contar com menos horas de luz para poderem ser usufruídas. Setembro é o mês em que não sendo bem frio também não possuía a intesidade de calor do mês anterior. Reservava o início do recolhimento. Lentamente as folhas das árvores enferrujariam e dançariam pelas alamedas e jardins. O entardecer assumiria uma tonalidade mais alaranjada e carregaria consigo um resfriamento da temperatura.

Com a chegada do Outono, Anne recebeu uma carta da sua irmã Mary Musgrove a queixar-se de que ela tinha-a abandonado por todo o Verão. Acusou-a de ser cruel por tê-la deixado sozinha quando ela sabia perfeitamente que sofria horrores com o calor. Mary afirmou na carta: “Sou basicamente uma inválida! Julgas que Charles se comove com o meu estado? Nem por um minuto! Parte logo de manhã cedo, para aventurar-se em caçadas que se prolongam durante todo o dia! E eu, que nem um copo de água consigo ingerir, fico aqui condenada a uma vida de quase indigência! Estou tão sem forças que quase nem consigo escrever-te…”.

O resultado das queixas de Mary foi a recusa de Anne Elliot de um convite feito por Emma Woodhouse para passar uma temporada com ela. Este convite era vantajoso para Anne porque poderia usufruir de alguma proximidade com Wentworth, já que este tinha se tornado amigo de Mr. Knightley e de Emma Woodhouse. Um tanto contrariada, declinou o convite;  não era uma altura para chamar a atenção de sua família.

É bem certo que os Elliot pouco reconheciam a importância de Anne; excepto quando era necessária para fazer algo que não lhes apetecia fazer. Mas dado o rompimento com Mr. Elliot, acreditava que tinha de ser cautelosa. Sabia que enfrentaria objecção da família por uma questão utilitária e não por causa do seu bem-estar. A sua convicção fazia-a estar segura de que se fosse necessário enfrentá-los, fá-lo-ia. Porém, também tinha sabedoria suficiente para não acirrar os ânimos.

Deixou-a insegura a reacção de Mr. Elliot quando comunicou-lhe que queria desfazer o compromisso. Mostrou-se inesperadamente atencioso, questionou-lhe o porquê de tal decisão, se ele teria cometido algum erro ou algo que a desagradasse e se não estaria a ser precipitada. Mr. Elliot inclusive chegou a declarar-lhe de que sentia por ela o mais profundo e sentido afecto que alguma vez sentiu e propôs-lhe que ela indicasse de que maneira ele poderia ser mais merecedor da sua estima e afecto.

“Mr. Elliot, compreenda, não se trata de uma questão de fazer algo melhor ou pior. Penso que somos incompatíveis e a nossa união nunca seria feliz”, afirmou-lhe Anne.

Mr. Elliot pareceu conformado e mudou de assunto. Continuou a conversar com Anne como se nada tivesse acontecido e como se eles não tivessem rompido o compromisso. “Uma reacção deveras estranha...”, pensou Anne. Ela, porém, tinha pensamentos mais belos para alimentar e toda uma profusão de planos para o futuro que, apresentava-se, sorridente. De tal forma que, passou a não dar tanta importância a continuidade de visitas de Mr. Elliot e o seu silêncio perante o resto da família sobre o rompimento. Anne também não sentiu uma obrigação imediata de informar a família.

Dedicou-se a trocar correspondência com Wentworth que estava de visita à irmã em Kellynch Hall.  Segundo ele informou-lhe, o Almirante Croft teria mais convidados consigo. “Querida Anne, algumas destas pessoas estiveram no abençoado baile que marcou o nosso recomeço. Como eu gostaria que estivesses aqui”, escreveu-lhe.  De facto, o pedido de Mary foi um presente da divina Providência porque poderia dar atenção à sua irmã , estar mais próxima de Wentworth e sair de Bath.

Envolvida nos preparativos para a viagem não apercebe-se da chegada de Mr. Elliot. No momento do toque da sineta para o chá, encontra-o a conversar com Sir Walter:

-Digo-lhe, Mr. Elliot, já não há elegância! De todo! Um legítimo cavalheiro de linhagem tem de atender a certos parâmetros de postura e de apresentação. Sinto náuseas com esta falta de consciência do lugar que cada um ocupa na sociedade! Qualquer dia, qualquer um que passe na rua dirige-nos a palavra como se tivéssemos de responder-lhes! Totalmente degradante…

- Caro Sir Walter, são os novos tempos… - responde-lhe Mr. Elliot

-Novos tempos! Novos tempos! Qualquer dia teremos de dar bom dia à criadagem! – refere Sir Walter enquanto torce o nariz. Neste momento, vê Anne: - Ah, Anne, está aqui o Mr. Elliot!

Anne o cumprimenta e ele retribui.

- Senhor meu pai, relembro-lhe que parto amanhã bem cedo.

-Partes? Como assim? – pergunta Sir Walter que já não se recordava que Anne iria visitar a irmã. Então, Anne volta a explicar-lhe. Durante toda a conversa, Mr. Elliot manteve-se quieto e silencioso. No fim da visita, desejou boa viagem para Anne e partiu.

Enquanto caminhava, apoiado na sua bengala, pela rua humedecida por uma leve camada de chuva, Mr Elliot afirmou para si próprio "Eu assegurarei de que terás uma boa viagem!"