Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 40

"A sorte não sorri a todos de igual forma. Se possuo algum valor, se tenho em mim alguma capacidade de resistência, tenho de dar o meu melhor. Resistir. Resistir. Resistir… Por Deus, como é possível passar da extrema felicidade ao mais profundo desespero? Encontro-me em queda, sem ver o final de tudo isto. Como resistirei? Como manterei a sanidade no meio desta desventura? Alguma vez tornarei a ver o seu rosto? Haverá outra oportunidade de ouvir-lhe a voz?

As duras provas pelas quais passamos não nos preparam para as armadilhas que o destino nos reserva e o cárcere ao qual fui submetida é prova disto. Será noite ou dia? Há quantos dias estou aqui? Até quando suportarei? Até quando…?"

 

Não sabia onde exactamente estava. Havia perdido a noção do tempo. Tinha, no entanto, a perfeita consciência de quem a tinha por cativa. Não podia imaginar, nunca, nem por um só minuto, que a sua decisão a levaria a conhecer o terreno vertiginosamente perigoso da natureza humana. E quão obscura ela pode ser! Quão terrivelmente obscura! Já esgotou lágrimas, súplicas e razão. Esgotou-se-lhe todos os argumentos possíveis para desvencilhar-se daquela situação. Restava-lhe resistir, esperar e orar. Orava fervorosamente para que tudo isto acabasse rápido e que a solução surgisse. Guardava em si uma réstia de esperança e não queria deixar, de forma alguma, que ela desvanecesse.

O frio enregelava-lhe os braços, por si doloridos. As cordas que lhe atavam os pulsos e as pernas rompiam a sua delicada pele e causavam um latejar insuportável. O vento lá fora, uivava e retorcia-se contra as janelas do aposento onde estava aprisionada. Sim, era uma prisioneira. Procurava manter a lucidez e, por outro lado, tentava recordar-se como tudo aconteceu; de forma a vir obter alguma indicação da sua localização. A única coisa que concluiu é que estava num local desabitado e que era perto do mar. Não ouvia barulho de outra pessoa para além o do seu algoz. Por outro lado, podia sentir o cheiro intenso de maresia e o som das ondas do mar em fúria. 

De repente, a madeira começa a ranger. Inicialmente, um som discreto. O som aumenta gradualmente conforme aproxima-se. Um passo a seguir a outro. Pareceu-lhe ser aquele o som mais desagradável do mundo. A porta abre-se. O quarto está obscurecido devido aos pesados cortinados e mas ela conseguia ver. Ele fica parado, a observá-la. Um sorriso e uma flor em uma das mãos. Na outra mão firma a bengala e prossegue até chegar junto ao leito. Ela está aterrorizada. Não sabe o que é mais degradante, o sorriso ou a flor. “Resistir, resistir, resistir…” repetia insistentemente na sua mente. Ele inclina-se e deposita-lhe um beijo na testa. “Que sensação tão absurdamente repugnante!”, ela não consegue evitar a náusea por tal contacto.

- Minha querida, - ele começa por dizer-lhe - não demorará muito para concretizarmos a nossa feliz união! Sei que deves estar ansiosa… mas não desesperes, em breve seremos um do outro para todo o sempre! 

Ela nada replica. 

- Sei que esta não deveria ser a forma adequada de prepararmos o nosso enlace, mas não posso correr riscos. És delicada e frágil. Mas o teu mérito não reside na capacidade para discernir uma decisão correcta da errada; de forma, que eu estou aqui para guiar-te e para garantir que não és novamente enganada e afastada de mim. – assegurou ele.

Em todo o tempo, ela nada disse e nada respondeu. Não havia nada a dizer. A única coisa que poderia realmente fazer seria aguardar pelo momento certo para fugir a toda aquela situação. Até lá, tinha de resistir e guardar forças. Foi com grande alívio que o viu ausentar-se do cômodo.  


 

Mr. Elliot apoiou-se na bengala e encaminhou-se para o seu próprio cômodo. Alcançou a larga varanda virada para o mar e aspirou amplamente o ar salgado. Ele parecia satisfeito com a reacção de Anne Elliot.  Traduzia daquele silêncio uma docilidade que entrevia um espírito quebrantado. Tudo no seu plano estava a seguir o rumo premeditadamente concebido. “Afirmei que ela seria minha e será!”, conjecturou em pensamento.

Do seu amigo, aquele a quem pediu auxílio, conseguiu o que pretendia. Convém referir que este amigo não fazia a remota ideia de que contribuiu para uma armadilha ardilosa. É bem verdade que tratava-se de um homem implacável e que seguia as conveniências, mas também é verdade que tratava-se de um homem com um sentido de honra. “Ele não poderia saber o que eu planeava mas serviu como peão para o concretizar dos meus intentos”, avaliou.

 

Existe uma fina barreira entre a sanidade e o abismo. Mr. Elliot tinha-a ultrapassado. Quando se cai no abismo dificilmente há um retorno.


1 comentário

Comentar post