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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 38

De feições carregadas e uma disposição para a amargura, ele não se coibia de despender ordens; e, ser obedecido era um pressuposto que não poderia ser colocado em causa. Quando um homem é propenso a exercer o seu poder seja sobre a criadagem seja sobre a própria família, ele acaba por desenvolver uma capa dura e rígida à volta do coração. Poucas coisas o demoveriam de fazer valer a sua vontade e tudo o que supusesse ser o correcto. A correcção, neste caso, está mais relacionada com o assumir de uma suposta verdade pessoal do que propriamente com valores da moral ou do amor cristão.

Não havia dia de sol que fosse capaz de comovê-lo e não havia argumento, por muito razoável que fosse, que alterasse uma decisão que lhe partisse dos lábios. Sabia ser gentil, se isto fosse conveniente, mas regra geral não sentia qualquer necessidade de o sê-lo. Civilidade e gentileza nem sempre estão aliadas e bastava fazer o que a convenção social exigisse.

Pode-se classificar um homem com semelhantes características como alguém com nervos de aço e implacável.

Este homem encontrava-se na biblioteca de sua propriedade a organizar alguns papéis e a tratar de alguns negócios quando ouviu a sineta a ser tocada. Não se incomodou com o facto. Um homem de sua posição era procurado por várias pessoas; porque não dizer, algumas vezes era inclusive importunado. Continuou concentrado na sua tarefa até ser interrompido pelo criado que anunciou o pedido de um distinto cavalheiro que solicitava ser recebido. Tratava-se de uma pessoa cuja presença não podia recusar-se receber. Acedeu. Entretanto, o criado retorna com o visitante.

- Caro Mr. Elliot, - saudou-o – a que devo a honra de sua visita?

-Um assunto da máxima urgência para o qual preciso de seu auxílio. – informou Mr. Elliot.

- Ah sim… Bem… então, caro amigo, faça o favor de se sentar e vamos conversar. Noto-o alterado e, talvez, um pouco nervoso… - o homem indicou uma poltrona e sentou-se diante dele – Se me permite, deixe-me dar ordens à criadagem para servir-nos um cálice de Porto enquanto conversamos – enquanto falava acenou com uma sineta e, de seguida, transmitiu a ordem.

Mr. Elliot, sentado na poltrona, segurou com as duas mãos a bengala que o ajuda a caminhar. Está visivelmente ansioso e a bengala servia de apoio para sustentar também a sua aflição.

- Conhecemo-nos há muitos anos para estarmos com vãos rodeios. Caro Elliot, exponha de uma só vez, o que o aflige e como posso ajudá-lo.

- Alguém, um intruso, - começa Mr. Elliot – quer roubar-me algo que me é muito precioso… algo que eu não julgava até então que me fosse tão precioso e eu preciso de sua ajuda para resolver este problema.

- Algo de precioso? – questionou o outro homem – Como assim? Alguém invadiu alguma propriedade sua? Querem destituir-lhe de seu título?

- Não… Receio que me considere banal e fraco. Mas conhece-me há muito tempo para saber que eu não desperdiço esforços com pequenas coisas. – continua Mr. Elliot - Como sabe tenho um compromisso afirmado com a minha prima, Miss Anne Elliot, algo que procurei aceder a pensar na conveniência da união. O caro amigo sabe também da importância que é mantermos as propriedades, bens e estatuto social intacto. Apenas nisso pensei quando tudo fiz para conseguir a promessa e o compromisso de casamento. Pouco a pouco, comecei a conhecê-la melhor e posso assegurar-lhe de que não há melhor criatura em todo mundo.

Nisto levantou-se e colocou-se em frente a uma grande janela, de costas para o outro homem, a olhar para o jardim. Continuou:  – De sua boca somente saem palavras gentis e sábias, cada gesto seu é de uma delicadeza e leveza que, por vezes, custa-me acreditar que ela é filha do meu desprezível tio, Sir Elliot.

Voltou-se para o amigo, ainda em pé e apoiado na bengala.

- Posso adivinhar-lhe espanto por tal declaração. Sempre agi fria e racionalmente. Mas confio que possa vir a entender-me porque sei que também sofreu por amor no passado. Por que não poderei eu ter as duas coisas: poder e amor? E eu quero as duas coisas! Não permitirei que alguém venha depredar-me do que tenho direito!

- Mas porque diz que alguém quer depredá-lo? Possui provas de tal desconfiança? – perguntou o homem.

- Sim! Tenho! Pois a própria Miss Anne Elliot comunicou-me que não poderia mais manter o compromisso firmado porque não encarava a possibilidade de se ver unida a mim. – informou Mr. Elliot. – Mas eu pude ver… o seu olhar estava diferente… as faces com um leve rosado e a pele com um semelhante brilho que entendi de imediato que se tratava de um afecto. Somente um afecto faz uma jovem parecer ainda mais jovem e bela.

- Então trata-se de uma suspeita e não de algo confirmado?

- Tenho a confirmação da minha suspeita, sim! – exclamou Mr. Elliot – e soube-o através da pessoa que menos esperava descobrir tal informação. Foi Lady Russel quem deixou escapar a informação.

- Lady Russel… quem é Lady Russel? – perguntou o homem, um tanto incomodado, ajeitando-se na poltrona

- É uma senhora amiga da família Elliot. Ainda quando a esposa de Sir Walter era viva, ela era a melhor amiga dela. É basicamente a figura maternal na vida de Anne. E ela foi, durante muito tempo, confidente dela e sabe muito sobre o seu passado. Em uma conversa de circunstância em Bath ela revelou-me que um certo capitão da marinha tinha retornado e que andava presente no círculo social de Anne. Isto bastou para o meu instinto dizer-me que esta informação significaria algo de prejudicial para mim. Comecei a investigar e descobri que durante este verão eles andaram frequentemente nas mesmas festas e recepções. Investiguei ainda mais a fundo e descobri que eles tiveram um passado em comum. Na família Elliot ninguém encarava com seriedade este passado, nem mesmo Lady Russel. Mas, como tem ciência, eu não acredito em coincidências.

Mr. Elliot interrompeu o seu relato como se lhe custasse respirar. O homem que o ouvia não conseguia perceber se era cólera que o impedia de prosseguir ou se seria angústia. Este, de facto, não parecia ser o seu amigo de sempre. Nunca o ouvira antes falar com tanta paixão e em tão extenso discurso. Ambos eram homens de poucas palavras e de acções assertivas.

- O que pretende de mim e no que posso ajudá-lo? – questionou novamente.

- Preciso que me auxilie a reverter esta situação! – bateu a bengala com força no chão e inclinou-se – tenho, quero e vou fazer com que Anne Elliot seja minha e só minha!

O homem, recostado contra a poltrona, segurava o cálice com uma das mãos e com a outra apoiava um lado da sua cabeça. De olhos presos em seu amigo teve a certeza da sua convicção e do seu empenho. Não precisou pensar muito. Mr. Elliot era uma pessoa a quem não podia negar nada; outrora, valeu-lhe em muitos momentos menos felizes de sua vida. E, embora corresse alguma fama quanto ao carácter de Mr. Elliot, este nunca cobrou-lhe nada nem nunca exigiu nada. Consigo sempre agiu de maneira acima de qualquer suspeita.

O homem levantou-se. Relembro o leitor de que estamos a falar de um homem implacável e que não se comovia com coisas supérfluas. Tratava-se aqui, porém, de um caso excepcional. Ele próprio ainda sente na pele a dor da perda… a dor da usurpação. Sem delongas, afirmou:

- Caro Elliot, ajudá-lo-ei.

Ambos sorriram leve, quase fugidiamente, e trocaram um aperto de mãos.

Um deles ainda não sabia que há decisões que são como abismos. Noutros casos, são como libertações.

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