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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 36

Um baile numa noite de verão é mais eficaz no seus resultados de que muitos conselhos sábios.

Haverá algo mais certo do que a franqueza de sentimentos e a clareza de espírito? Quando se tratam de duas pessoas destinadas uma à outra, poderão surgir muitos obstáculos e barreiras; a determinação de carácter os fará, porém, desafiar o próprio destino.

Esta é uma conclusão que Frederick e Anne aprenderam por si próprios. Durante grande parte da noite passaram a conversar como se nunca tivessem estado longe um do outro. E havia tanto a dizer! Anne ouvia embevecida as aventuras que Frederick viveu nos anos a navegar em alto-mar. Conjecturou se algum dia poderia vir a embarcar em semelhante empreendimento… seria outro sonho concretizado. Ao seu lado, Anne sentia-se capaz de qualquer coisa!

Frederick abstinha-se de avaliar a dimensão do que lhe estava a acontecer. Permitia-se apenas acompanhar o relato do descaso da família Elliot em relação a Anne e de como ela era tão generosa ao desculpá-los. Em meio a toda esta troca de relatos, Anne lembra-se de um detalhe deveras importante. Algo de que tanto ela quanto ele estavam a esquecer-se: o compromisso de Anne com Mr. Elliot!

- Vou romper o acordo! – afirmou Anne – Sei que não será fácil, não porque receie fazê-lo mas porque tenho toda a minha família desejosa de que esta união se concretize e… - acrescentou timidademente – inclusive, Lady Russel.

- Lady Russel, obviamente… - repetiu acidamente Frederick.

Anne replicou: - Meu querido, não se agaste com Lady Russel, tente perdoá-la. Ela sempre quis e sempre irá querer apenas o meu bem. Estou certa de que não irá gostar da minha decisão mas não ousará entrar em desarmonia comigo. Já a minha família, esta irá colocar todo o tipo de obstáculos mas creio que tudo se irá compor. Em última instância, custar-me-á, mas admito romper laços com a minha família se for necessário.

- De facto, poderá acontecer isto que prevê. E qual será a reacção de Mr. Elliot? – questionou Frederick.

- Bem… penso que ficará desagradado com o transtorno de um rompimento. – afirma Anne - Ele, mais do que ninguém avalia a conveniência da nossa união. Contudo, ele é um homem prático e procurará encontrar outro partido proveitoso. De facto, não penso que ele nutra por mim qualquer outro afecto para além do estatuto social do nome Elliot.

 

Custou-lhes separarem-se um do outro. “Porque não teria a noite a duração de muitos dias?”, suspirou mentalmente Wentworth. Contudo, não poderiam mais estar juntos sem chamar a atenção de todos pela ausência prolongada e a última coisa que desejaria seria comprometer a reputação de Anne, caso fosse vista sozinha na sua companhia no jardim. Despediram-se com a troca de promessas e com o firme compromisso de serem para sempre um do outro. Wentworth seguiu numa direcção e Anne noutra. Wentworth foi o primeiro a reentrar no salão do baile e encetou de imediato uma conversa em tom de voz baixo com Mr. Knightley; este último, que estava encostado a uma das portadas viradas para o jardim, foi o álibi perfeito. Quem olhasse do salão pensaria que eles sempre estiveram juntos a conversar. Alguns minutos mais tarde, Anne junta-se à festa, num lado oposto ao da localização de Wentworth.

- Miss Anne Elliot, por quem sois!! Era mesmo de si que eu precisava!! Junte-se a nós!

Anne voltou-se e encontrou Mrs. Jennings a falar animadamente com Jane Churchill sobre a sua extrema habilidade em promover uniões proveitosas e contava com detalhe e minúcia as suas histórias. Jane ouvia-a com paciência porque, apesar de não apreciar este tipo de mexerico, entendia que Mrs. Jennings realmente encarava a tarefa de juntar casais como uma missão e que fazia-o mais por bondade do que por vaidade. Anne juntou-se-lhes e ouvia sem discernir qualquer palavra dita. Estava demasiadamente leve e distraída para entender o que quer que fosse. Os seus ouvidos somente atendiam ao rufar do seu coração e a todos os eventos ocorridos anteriormente. De longe, Wentworth olhava-a e ela discretamente retribuía-lhe o olhar. Havia entre eles uma cumplicidade que, nem mesmo um salão cheio, podia abafar. Jane observava Anne por cima das palavras de Mrs. Jennings e perguntou-lhe:

- Perdoe-me Miss Elliot, sente-se bem? Parece que tem as faces enrubescidas. Estará a fazer demasiado calor aqui dentro para si?

- Oh não! Rogo-lhe que não se preocupe. Apenas sinto-me um tanto cansada. Um baile sempre exige-nos uma disposição para além do usual. – respondeu-lhe Anne.

- Entendo-a perfeitamente – diz Mrs. Jennings – Eu própria já não tenho grande resistência para bailes! Por isso, resigno-me a ver a juventude se divertir! O divertimento dos outros dá-me uma alegria desmedida! Principalmente quando vejo jovens apaixonados… Miss Anne Elliot, a sua expressão não me engana… Tenho quase a certeza de que me esconde algo… o que será…?

Anne fica constrangida e Jane olha-a atentamente; porém, mantém-se silenciosa. Mrs. Jennings volta a insistir:

-Ah, minha querida! Tenho quase a certeza de que está enamorada e de que é correspondida… só me falta descobrir quem é o felizardo! Devo informar-lhe de que sou extremamente bem sucedida em antever casais apaixonados – Mrs. Jennings dá uma gargalhada e prossegue – E como sou! Os casais Ferrars e Brandon que o confirmem.

Anne tentou dissuadi-la da sua conclusão: - Posso assegurar-lhe, minha cara senhora, de que está equivocada. Nada tenho a esconder e não estou enamorada. Apenas um pouco cansada…

A verdade é que Anne não soava convincentemente e quem poderia culpá-la? Tinha acabado de viver um dos mais importantes momentos da sua vida. Contudo, era absolutamente necessário guardar segredo até poder conversar com Mr. Elliot e ter o seu compromisso desfeito. Antes disto suceder, a cautela era imperiosa. Somente foi possível controlar o ímpeto de curiosidade de Mrs. Jennings com a presença de Jane Churchill que, pressentindo algo diferente em Anne, conseguiu distrair a insistente senhora ao questionar-lhe sobre a sua filha Charlotte. Entretanto, Mrs. Bennet veio requisitar a companhia de Mrs. Jennings, que era a única capaz de entendê-la.

Jane aproveitou a saída de Mrs. Jennings, voltou-se para Anne e disse-lhe:

-Miss Elliot, não quero parecer intrusiva nem indiscreta. Conhecemo-nos apenas hoje mas sinto quase como se nos conhecêssemos há anos. Realmente tenho de concordar que parece diferente. Parece que algo aconteceu – Anne ia interromper-lhe mas Jane continuou – Não, não se apoquente, por favor. Apenas quero dedicar-lhe a minha estima. Como lhe confidenciei antes, eu sei o que é guardar um segredo. E, de igual forma, sei o que é sofrer por causa disso. Assim, quero reforçar-lhe que pode ver em mim uma amiga. Poderá sempre contar com a minha atenção.

- A amizade realmente aparece quando menos esperamos – inicia Anne – É uma bênção poder receber estas suas palavras de afecto. Acredite-me, valorizo o seu gesto e não vou esquecê-lo. Querida Mrs. Churchill, poderá também ter em mim uma amiga. Guardo algo realmente… mas ainda não é hora de revelá-lo. Talvez venha a precisar de si mais do que pensa.

- E terá a minha ajuda! Tenha a certeza! – afirma Jane.