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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 35

Os seus ouvidos não queriam acreditar na tonalidade enternecida da voz de Cap. Wentworth quando afirmou-lhe que o seu sentimento por ela continuava intocado. Disse-lhe, olhos nos olhos:

- Tenho por si um sentimento impossível de ser negado. Um sentimento tão intenso, tão completo, tão pleno, que não o posso ignorar. –  continuou – Apresento-me diante de si, livre de qualquer constrangimento ou orgulho. Dedicado e entregue. Incorro no risco de ouvir-lhe uma resposta negativa…  Mas, no fundo de minha alma, adivinho-lhe reciprocidade. Quero-lhe as palavras de que tanto ansiei. Permita-me este capricho. Peço-lhe, confirme o que acredito ser o seu sentimento, tão profundo quanto o meu, porque tenho a firme convicção de que serei capaz de fazê-la feliz.

Anne Elliot, sem pressagiar tamanha ventura e este desenlace deixa transparecer no seu rosto toda a miscelânea de sentimentos. A princípio, surpresa. De seguida, emocionada. Por final, rendida e certa de que estava a concretizar-se o que sempre sonhara.

- Cap. Wentworth…Frederick…pensei que nunca mais pronunciaria o seu nome com tanta familiaridade. Não sei o que poderia dizer-lhe, que quase não consigo crer no que me diz… - balbucia Anne – Não julguei que Deus fosse tão generoso ao ponto de permitir-me voltar a ver-lhe dedicar-me semelhantes palavras de afecto e de amor. Ousei sonhar mas não me atrevi a acreditar. E, nos meus devaneios mais audazes não julguei receber tanta franqueza. Fala-me com tanta alma, com tanta doçura. Serei merecedora?

Wentworth ia responder-lhe mas Anne interrompeu-lhe:

- Carrego comigo, ao longo destes anos de separação, este peso de estar condenada. Sim, porque não estar consigo foi uma condenação. Tentei levar a minha vida com a tranquilidade de quem julgava ter feito o correcto e de quem cumpriu o sacrifício de pensar no bem-estar do outro…

- Anne, doce e adorada Anne, não vamos torturar-nos com o passado. – replicou Frederick

Anne, porém, continuou: - Para sobreviver, querido Frederick, comecei a conjecturar que serias feliz com outra pessoa. E, mesmo este pensamento, constituía uma lenta dor. Um consolo doloroso. Quando me afirma que, ao contrário do que eu poderia sequer pensar, de que ainda nutre por mim o mesmo sentimento; de que ele resistiu às intempéries da vida e da desilusão, encontro-me tão afortunada e tão grata!

Anne não esconderia dentro de si mais nada. “Eis a minha chance de ser feliz!” – pensou e sorriu enquanto declarou:

- Confesso-lhe que não posso conter o que sinto. Sim, o meu sentimento continua o mesmo; e, porque não dizê-lo, talvez ainda maior.

Frederick Wentworth não precisou ouvir mais nada. Estava convicto de seus sentimentos e tinha a confirmação dos de Anne. Tinha conquistado, com a sua carreira na marinha, um novo estatuto na sociedade e tinha bens. Sobretudo, era determinado. Nada o iria demover de ter para si e para sempre a adorada Anne. Tantos anos… Enquanto navegou pelos diversos mares, pelo mundo fora, foi perseguido por aqueles doces olhos! Em noites de lua alta, podia ver-lhes o brilho. E, quantas vezes, ao viver tempestades e tormentas parecia ouvir aquela voz a acalmar-lhe dos perigos. Sim, nada o demoveria. Estava certo, agora, de que nada demoveria Anne também.

- Anne – disse enquanto tomou-lhe as mãos entre as suas - Não somos os mesmos de há anos atrás, somos seres melhorados. Passamos pela dura prova da distância e da contrariedade. Não há nada que nos detenha! Aceita-me. Estou diante de ti e quero estejamos os dois unidos de agora em diante e para sempre!

- Sim! - respondeu Anne - Tens o meu coração. Sempre fui tua. 

 

 

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