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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

ShortStory2 | Parte 33

"Escrevo a palavra felicidade nas linhas do meu coração.

Escrevo, nestas páginas que me acompanham ao longo dos meses, a observação do mundo em que vivo.

Escrevo para não esquecer-me do meu percurso: sentimentos, pensamentos e sonhos. Tenho de escrever para que não me perca de mim própria e para não esquecer-me de quem eu sou. Alturas houve em que senti-me invisível, pequena e insignificante. Alguém que somente é lembrada quando necessária. Quando vivemos em tal solidão e quando pertencemos a uma família tão frívola e fria há-que ter um escape: encontrei tal bálsamo no silêncio da escrita. É bem certo de que tive os meus dias de felicidade no passado. Foram os dias em que o conheci e através dos quais descobri-lhe a grandeza de carácter. Outrora, vi nascer em mim um sentimento mais forte do que poderia imaginar sentir. Por amor a ele e, talvez, por alguma insegurança, abdiquei deste sentimento. Abdiquei. Isto foi um sacrifício pago a um preço demasiado elevado. Permiti que arrancassem de mim meu viço, minha voz, minha alma, meu coração.
Passados tantos anos, bastou-me ouvir-lhe a voz e sentir-lhe o olhar. Bastou-me, atrevo-me a dizer, saber de antemão a sua presença. Os meus olhos fugiam ao reencontro. Como não fugir? Como não recear? Como não sentir esta insegurança de, até hoje, sentir-me pequena, frágil e fraca? Como conceber uma possibilidade de perdão? Poderia eu exigir da vida mais do que ela me deu? Poderia eu admitir a remota hipótese de que teria uma segunda chance?
Ele é a própria materialização de tudo o que eu nem sequer teria coragem de sonhar-me merecedora. No entanto, hoje encontro-me diante destas páginas e confronto esta estranha sensação de felicidade. Esta pequena luz. Este chamado que a Providência permitiu-me entrever. Ele, que julguei inalcançável e, para sempre, distanciado da minha vida. Ele, aparentemente indiferente. Ele, ciente do que sente e do que quer. Ele e a intensidade das suas palavras que ainda martelam na lembrança da noite do Baile."


 

 

Escreveu furiosamente para não deixar um só detalhe de tudo o que a fazia, naquele momento, duvidar até da sua própria sanidade. Ria, chorava, escrevia, parava, retomava páginas e páginas. “Elas serão as minhas testumunhas. Elas serão a prova da minha felicidade”, pensou. Por vezes, interrompia os seus gestos e tornava-se estática a pensar em tudo o que aconteceu e em todas as palavras que ouviu. Aflorava-lhe um sorriso distraído e um lampejo de rubor. Febril e enérgica, sentia-se tão distante do que foi até este dia. O rumo da sua vida mudou e só ela, ele e as páginas que preencheu com fervor, ao longo de toda a madrugada, eram conhecedores deste facto. 
Mas, em breve, todos saberiam.

 

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