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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Duas formas diferentes de ser mãe

Em "Sensibilidade e Bom Senso" encontramos vários exemplos de maternidade.  Talvez seja a obra onde o tema da maternidade esteja mais fincada. Torna-se irresistível para mim fazer uma comparação entre dois tipos completamente diferentes: Mrs. Jennings e Mrs. Ferrars.

Mrs. Jennings e Mrs. Ferrars devem se assemelhar em idade e condição financeira e social. Não será demasiado dizer que as semelhanças terminem neste dois factores. Ambas não podiam ser mais díspares em comportamento e visão de vida.

 

Mrs. Jennings é a minha predilecta no que diz respeito ao assunto maternidade em toda a obra de Jane Austen. Tenho consciência de que esta é uma personagem que não agrada a todos os gostos, devido ao seu espalhafato e alguma inconveniência; mas, perdoo-lhe todos estes pequenos detalhes da sua personalidade. A sua grandeza de sentimentos e generosidade supera largamente qualquer defeito. Mrs, Jennings é uma viúva que tem as filhas encaminhadas na vida e a sua distracção são os mexericos e promover casamentos entre os jovens da terra. Claro que as Dashwood não iriam escapar ao seu dom de casamenteira… Inicialmente vemos que as irmãs toleram-na mas não fazem questão da sua companhia. Algo que, penso eu, tenha sido um pouco injusto. É com a viagem a Londres, a decepção de Marianne com Willoughby e a doença de Marianne que toda a generosidade, bondade e carinho maternal de Mrs. Jennings vem à tona. E nem as irmãs Dashwood puderam deixar de reconhecê-lo. No relacionamento com as suas próprias filhas, notamos que é com Charlotte Palmer que ela lida com mais naturalidade, talvez por causa da semelhança de feitios. Contudo, é uma mãe presente e atenciosa com ambas filhas. Uma mãe que se preocupou em garantir para as filhas uniões matrimoniais que pudessem trazer-lhes felicidade.  Por sua vez, as filhas são também mães extremosas - cada uma à sua maneira - o que revela o facto de seguirem o exemplo da própria mãe.

 

Mrs. Ferrars não tem voz activa e presente na obra. Quase que sabemos o que ela pensa e diz através do relato de outros. Mas tudo o que é dito sobre ela revela uma frieza e distanciamento emocional dos filhos. Para ela, o estatuto social e as posses são o elemento primordial para um casamento. A união é um contrato, uma transacção de interesses. Excluindo Edward, os seus filhos Fanny e Robert parecem concordar com a mãe (mesmo depois Robert ter se unido a Lucy Steele). Fanny, sobretudo, parece ser uma fotocópia da mãe em feitio e na maneira como exerce a sua própria maternidade. Quando Fanny manipula o marido para este não auxiliar as irmãs Dashwood financeiramente usa como argumento o bem-estar do filho de ambos. Afigura-se-me que a sua preocupação real seria a sua própria ganância. Aos filhos que se rebelaram, primeiro Edward e posteriormente Robert, Mrs. Ferrars respondeu com deserdamento e desdém.

 

Imagino Mrs. Jennings como alguém que viveu um casamento feliz e cuja a maternidade resultou em prazer e felicidade; enquanto que no caso de Mrs. Ferrars, encaro-a como alguém que também na altura devida deve ter sido conduzida a um casamento mas por conveniência. Tudo isto determinou a forma como encaravam a vida e o destino de seus filhos.