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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Lost in Jane Austen Portugal #22

Na manhã seguinte ao enterro da Tia Augusta, a D. Rata apresentou-se em casa da amiga com o pretexto de vir buscar o livro de receitas da falecida. O livro era lendário entre a família e amigos pois apesar da pouca saúde a Tia Augusta cozinhava divinamente. Júlia e Cecília nunca mostraram talento especial para a culinária, sabiam cozinhar alguns pratos básicos e nenhum mais elaborado. O correcto seria dizer que elas desenrascam-se na cozinha.

Júlia estava ausente de casa e Cecília desconhecia esta herança de que falava a D. Rata. Assim, Cecília ligou à irmã que confirmou a vontade da tia e disse-lhe onde estava o livro. Ao tirá-lo da gaveta da mesa de cozinha, as folhas espalharam-se todas pelo chão. Cecília apanhou uma e verificou se estava numerada. Não estava. Teriam as receitas uma ordem? Verificou novamente a ver se via uma data e perante mais esta falha, enfureceu-se por a tia guardar dentro de uma capa um monte de folhas soltas em vez de ter um caderno.

Nesse momento, a D. Lúcia entrou na cozinha, nunca tinha tocado no livro mas sabia que  a tia Augusta  organizava as receitas por categorias, entradas, pratos de peixe, pratos de carne, sobremesas…

Cecília agarrou nas folhas todas e levou-as para o seu quarto e lá começou a organizar. Ela podia ter dado o livro conforme estava, mas sabia que a D. Rata não tardaria a fazer comentários sobre o assunto. Informou a D. Rata do sucedido e pediu-lhe que voltasse mais tarde, ela não ficou convencida, pois achou que aquilo era truque para não lhe darem o livro e ao sair planeou voltar ao início da tarde e falar com Júlia que sabia ser mais fácil de manipular.

Ao fim de alguns minutos, Cecília percebeu que apenas algumas folhas, aquelas que se tinham espalhado, estavam desalinhadas. Calculou que o resto estivesse no sítio. Mas mesmo assim verificou até à última folha e viu que esta era uma carta.

Cecília começou a ler:

 

Querido Zé,

 

A Cecília começou ontem a escola. Ainda me lembro do dia em que nasceu, era muito pequena e os médicos temiam que não sobrevivesse. Só a Deus devemos agradecer a graça por ela ter sobrevivido. A sua saúde é de ferro e isso alegra-me. Recordo muitas vezes os dias em que a peguei nos meus braços e a chamei de filha. Agora já não posso fazer isso. Entristece-me saber que ela pensa que eu sou apenas a tia, uma tia doente. Sei que me ama, mas o amor de mãe dá-o a outra.

Passados estes anos todos, sinto remorsos de não ter lutado pela minha menina e ter aceitado que ela seja criada como filha do meu irmão e não minha.

Nada parece mitigar este meu sofrimento, apenas estas cartas onde escrevo, cartas que nunca irás ler. Ainda ontem deixei uma no teu túmulo, pareço uma criança que escreve ao pai natal… Mas são estas cartas que me dão algum alento, o tema Cecília é proibido…

 

 

Cecília reconhecera a letra da tia, não estava datada e notava-se que ao escrever a tia tinha derramado algumas lágrimas. Era claramente uma carta não terminada.

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