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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Lost in Jane Austen Portugal # 20

Augusta Ferreira deixou o mundo dos vivos ao fim de sessenta e cinco anos de vida. Nunca tinha casado ou tido filhos, as suas sobrinhas Júlia e Cecília eram na falta destes, as parentes mais próximas.

Augusta estava numa idade em que os amigos e família começavam a rarear. Por isso o seu funeral foi pouco concorrido, alguns familiares todos já em segundo e terceiro grau de parentesco, a amiga que mantinha desde a sua juventude, D. Rata, Luluzinho e alguns vizinhos.

A Tia Augusta nunca gozara de boa saúde e com o passar dos anos foi definhando. Assim, as duas irmãs não esperavam que ela chegasse à idade do avó (pai da tia Augusta), que vivera até à bonita idade de 90 anos e sempre a respirar saúde… Mas mesmo assim sentiram e muito a morte da tia.

Júlia ficara abalada quando ao entrar no quarto da tia com o pequeno-almoço, como era hábito, se apercebeu que ela já não tinha vida. Tinha-se sentado pacificamente na beira da cama e chorado. Foi lentamente inundada por recordações felizes dos tempos em que tudo parecia mais fácil do que naquele momento. Chamou a D. Lúcia, a mulher-a-dias que naquele dia viera fazer as limpezas. A mulher, fiel servidora da casa há muitos anos, chorou num pranto contido a boa senhora que se fora tão jovem, pois quando temos a mesma idade de quem morre, eles para nós são também jovens.

Júlia, mais calma, chamou a 112 já não vinha socorrer ninguém, mas era necessário transportar o corpo para o hospital, chamar a polícia, vir o delegado de saúde que pronunciaria a Tia Augusta como morta. Júlia não tinha ideia do que aconteceria a seguir e não se lembrando de nada nem ninguém apenas se lembrou do número das emergências que marcou.

Uma hora mais tarde, Júlia telefonou à irmã. Cecília estava nesse momento com Henrique a passear junto ao Sena e a trocar com este juras da amor eterno, como se estivessem num filme romântico. Cecília veio então no primeiro voo para Portugal e Henrique nunca deixou de estar a seu lado. Henrique sentia a dualidade de sentimentos próprios de quem se sente o homem mais feliz da terra e o abalo pela morte de alguém. Ele mal conhecia a Tia Augusta, mas sofria pois sabia o quanto Cecília amava a tia.

 

 

Após o funeral, Júlia retirou-se para o seu quarto e Henrique e Cecília sentaram-se na sala de estar. Eram cinco horas e Cecília lembrando-se do que acontecia sempre aquela hora sentiu-se inquieta, quando o velho relógio parou as badaladas que anunciavam ouviu ou imaginou ouvir o telemóvel da irmã a tocar. Perguntou a Henrique se ele ouvira o telemóvel a tocar, porém ele não entendeu e pensado que ela estava a falar do telemóvel dele, assegurou-lhe que o tinha desligado.

 

- Não o teu o da minha irmã.

 

- Não conheço o toque dela – disse ele esboçando um leve sorriso.