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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Frank Churchill, o playboy "ambíguo"

Fonte: 123nonstop

Frank Churcill é para mim o playboy mais ambíguo da obra de Jane Austen. Com as suas maneiras astutas, consegue deliciar todos os que estão à sua volta, desde o pai, a madrasta (um pouco mais reticente no início), Emma, as pessoas das suas relações sociais. Exceptuam-se Mr.Knightley e Jane Fairfax. O primeiro, não obstante do seu sentido de perspicácia constante, parece revelar ciúmes por Frank flirtar com Emma. A segunda, numa aparente indiferença, tenta esconder os laços que os unem, isto é, o noivado secreto que escondem das suas famílias e amigos.

Destaco dois pontos na dualidade desta personagem, que embora dispares em termos avaliativos, revelam o carácter deste jovem. O primeiro é de índole negativo. Mr.Churchill alimenta especulações negativas quanto aos sentimentos e às acções de Miss Fairfax. Quando lhe é oferecido um piano, quiça de um “admirador secreto”, é ele próprio que explora um possível relacionamento entre Jane e Mr.Dixon, o marido da sua amiga de infância e criação. Ora uma suspeita deste género seria passível de arruinar o bom-nome de qualquer jovem, em especial daquela órfã cuja situação pessoal e profissional era particularmente frágil. Mesmo com todos os motivos que pudesse invocar (desviar o seu alvo amoroso das atenções públicas, pressionar de qualquer forma Jane a tomar uma decisão quanto ao seu futuro…), foi de facto uma leviandade imensa. Assim como flirtar com Emma, embora neste caso não sei até que ponto a imaginação casamenteira da protagonista e a pressão da família Weston não teriam fomentado tal situação irreal.

Mas por outro lado há um segundo factor que me faz “reabilitar” o carácter de Frank Churchill, e que é a forma delicada como trata Miss Bates e a sua mãe. Note-se que no final do filme “Emma” (1996) aparece representado em pintura (numa indicação de futuro), de braço dado com Jane Fairfax e Miss/Mrs.Bates. Mostra que, apesar de tudo, é alguém com bons sentimentos, que estima e protege a frágil tia e avó da sua amada.

Penso que Frank é um jovem que não é mau por natureza, e tem uma boa relação com a fortuna, pois casa com uma jovem sem herança, mostrando que preza o amor acima do dinheiro. E não sei se de facto se pode considerar um vilão, no pleno sentido do termo. Comparar Mr.Churchill a Mr.Willoughby, como já li algures, não faz grande sentido, a menos que se queira partir do carácter playboy das personagens, derivando o primeiro para os bons sentimentos e o segundo para os maus. Talvez Jane nos tenha querido mostrar que, partindo desta mesma base, cada personagem, cada pessoa é livre de escolher o seu próprio caminho, daí os dois exemplos apresentados. Pessoalmente simpatizo com Frank Churchill, um jovem obstinado que brinca com os jogos sociais e a imaginação fértil da sociedade da época, e se diverte muito a confundir as pessoas. Apesar de tudo, é um bom rapaz.

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