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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Lost In Jane Austen Portugal #5

 

Júlia, recebeu na tarde do dia seguinte, a Senhora Aurora, uma antiga vizinha e velha conhecida da família - que na intimidade da casa e dentro das quatro paredes, era chamada por Dona Rata, o seu apelido de solteira do qual tanto a tia Augusta se ria. Júlia recebia-a com toda a simpatia que lhe era possível. Ultimamente frequentava muito a casa pois viera viver para junto do filho e então as visitas à tia Augusta eram um enorme entretém para ela e um gigantesco alívio para o filho, mas um tormento para Júlia. A dona Rata era uma mulher inconveniente que falava pelos cotovelos, criticando mais do que aprovando. Sabia ferir susceptibilidades como ninguém e achava que tinha sempre razão, e já ninguém a contradizia pois a idade é um posto.

 

Sempre gostara de Cecília, aquela jovem menina de cabelos doirados que lhe levava as arrufadas pela altura da Páscoa, a mando da tia Augusta, num grande cesto de verga quase maior que ela, alimentando a gulodice à dona Rata. Cecília nunca a confrontara com nada e suportava como ninguém os seus inoportunos monólogos sem denotar qualquer espécie de cansaço ou irritação. Já Júlia sempre fora mais traquina, e quando era pequena era terrivelmente impaciente, incapaz de ficar quieta enquanto ela falava. E a falta de consideração era algo que a dona Rata não podia permitir, nem a uma criança de sete anos. Por isso, na sua escala de consideração, Júlia não ocupava nenhum lugar cimeiro. E, embora sendo agora adulta e suportando com certo nível as inconveniências da dona Rata, era incapaz de esconder a sua impaciência e, a partir de determinada altura, as pernas cruzavam e descruzavam com demasiada rapidez. E a dona Rata via-o e por isso, provocava-a ainda mais, ou com a mobília que se via claramente que não estava a ser convenientemente cuidada:

 

- E olha que é mobília de extrema qualidade, se não for encerada pelo menos uma vez por mês podes ter uma infestação de térmitas e isso seria profundamente desgostoso para a tua tia, que tanto gosta de ti, Julinha. Júlia, atrás dela, enquanto se dirigiam para a sala de estar, revirava os olhos e meneava a cabeça.

 

Se não era com a mobília era com o estado civil de Júlia que ela considerava muito pouco apropriado para uma jovem da sua idade:

 

- Como é possível que a Julinha ainda não tenha casado... bem sei que a competência para dona de casa é muito pouca e isso afasta muitos dos melhores jovens casamenteiros... mas pelo menos não é feiazinha de todo, não é assim? Olhe para o exemplo da minha Elvira ou da minha Conceição, bem sei que ainda possuem o brilho da juventude, mas têm só menos dois anos que a Julinha e já casadas com dois moços de muito boas famílias, pena que a Julinha não tenha essa sorte... mas também a escrever livros... em que é que a Julinha estava a pensar quando se meteu nisso! - e dito isto, olhava expectante para Júlia, sugando todas as expressões que mostrassem o impacto que as suas palavras tinham tido.

 

Esta inspirava e tomava o seu ar mais calmo e solícito respondendo: - "Eu não possuo nenhum dos estímulos que levam as mulheres a casar. Ainda se me apaixonasse, seria diferente... Mas eu nunca me apaixonarei: não está no meu feitio nem na minha natureza. Nem julgo que o esteja alguma vez".

 

Dona Rata olhava para ela incrédula, virando-se para a tia Augusta, murmurando: - Esta juventude... mania das independências Augusta, fosse no nosso tempo...! Mas Augusta, já ouviste falar da Romaria da Nossa Senhora da Piedade deste ano? Nem sabes quem eu vi por lá... lembras-te da Leonor, a que casou com o Alfredo da indústria das alcatifas? Pois bem, ... ...

 

A conversa foi longa. Incluiu uma ou duas vezes Cecília, perguntando-lhe pelo emprego, mas nada mais. Foi com alívio que Júlia a viu ir embora enquanto acenava à porta com a irmã.

 

- A dona Rata não tem remédio! - foi a frase em tom sarcástico que Cecília deu à irmã.

- Intratável, insuportável, odiosa... ! - e mais alguns insultos que Júlia foi discorrendo enquanto subia as escadas. Aquela mulher tirava-a do sério...

 

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