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Jane Austen Portugal

O Blogue de Portugal dedicado à Escritora

Lost in Jane Austen Portugal #4

 

Cecília estava deitada na cama a olhar para o tecto. Estava ali de passagem. Viera visitar a tia e a irmã e aproveitara para ficar uma semana. Júlia pedira-lhe que fosse. Há uns quinze dias atrás recebera um email da irmã, no mínimo com uns 90 centímetros de comprimento. Era fantástica a forma como Júlia escrevia tanto sem dizer nada de especial, perdida em descrições de situações triviais.

 

Tinham-se afastado há uns cinco, seis anos. Uma separação natural e lenta. Nesse tempo Júlia vivia demasiado para si e, inconscientemente, esquecia-se daqueles que a rodeavam, e aos poucos, o desconhecimento tornou-se numa estranheza e as duas irmãs que antes haviam sido unha com carne, eram agora duas parentes que se encontravam nas festividades e cuja conversa passava pouco além de temas superficiais, não obstante de Júlia dar sempre as essas conversas, um ânimo e alegria forçados como se tudo estivesse na mesma. Era uma máscara estranha a que a irmã usava, um optimismo ilusório ou uma ilusão forçada.

 

Júlia nunca o conhecera. Contar-lhe agora qualquer coisa sobre a separação entre ela e ele seria, para além de esquisito, totalmente deslocado. Como poderia ela condensar em palavras a imensidão daquilo que sentia? Além disso a sensibilidade de Júlia parecia sedimentar-se toda nas páginas dos livros que escrevia. E há muito que ela se cansara da máscara do belo sorriso da irmã e, julgava Cecília, que pouco mais ela lhe tinha para oferecer.

 

E foi neste turbilhão de pensamentos, que saltavam de Júlia para ele, que Cecília finalmente adormeceu. No relógio piscavam três horas da manhã quando Cecília se levantou e dirigiu à secretária retirando da gaveta uma folha onde escrevinhou:

 

«Tive pavor de esquecer a tua voz gasta pela maré e por isso, em sonhos, voei até ao mar e distingui as tuas feições no vento, senti que te entranhavas suavemente no vazio da minha alma. No corpo, mantive o sabor a maresia dos teus lábios. Guardo-te serenamente nos confins lentos da minha recordação, no constante vai e vem das ondas que recuam para poder seguir em frente.»

 

Quando se voltou a deitar, nem a almofada poderia abafar o som peculiar de quem chora e naquele coração mergulhado em mágoa uma frase entoava como consolação "O curso do amor sincero nunca é sereno".

 

 

 

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